A leishmaniose é uma doença provocada por um protozoário, parasita intracelular obrigatório, do género Leishmaniae é normalmente transmitida por flebótomos (Camargo at al, 2006). Esta doença pode afetar quer animais domésticos ou selvagens, bem como o Homem, sendo por isso considerada uma zoonose (Camargo at al, 2006). Os animais silvestres como roedores ou canídeos selvagens são considerados como reservatórios primários de Leishmania(Abrham et al, 2016). Os canídeos domésticos são considerados um importante reservatório deLeishmania(Abrham et al, 2016).
É considerada pela WHO (World Health Organization) como uma das mais importantes zoonoses, principalmente pela sua distribuição mundial bem como pela dificuldade de controlo da doença (WHO, 2018). Existem vários fatores que contribuem para esta larga distribuição mundial, podendo destacar a intensa migração humana, a desflorestação e alguns riscos individuais como a existência de doenças imunodepressoras como o VIH, má nutrição, genética, entre outros (Camargo at al, 2006).
É uma doença de elevada prevalência em países tropicais e subtropicais devido à existência de condições ambientais ótimas para o desenvolvimento do vetor (Camargo at al, 2006). Está ainda associada a países subdesenvolvidos, no entanto, encontra-se também distribuída largamente por vários países considerados desenvolvidos (Camargo at al, 2006). No entanto, a sua distribuição geográfica está dependente da distribuição dos seus vetores e consequente a prevalência de determinado tipo de leishmaniose está também dependente deste fator (Abrham et al, 2016).
Segundo a WHO, existem quatro tipos diferentes de manifestação da doença no Homem:
· Forma cutânea, caracterizada pela existência de úlceras cutâneas que normalmente surgem nas zonas mais expostas como a face, braços e pernas (WHO, 2018);
· Forma cutânea difusa, caracterizada pela existência de lesões de pele crónicas e disseminadas, sendo mais grave que a forma cutânea (WHO, 2018);
· Forma mucocutânea, caracterizada pela existência de lesões em mucosas, como a mucosa nasal e oral e tecidos envolvidos (WHO, 2018);
· Forma visceral: caracterizada por ser uma forma difusa e que afeta alguns órgãos tais como o fígado e o baço, levando a perda de peso, anemia e febre elevada (WHO, 2018).
A forma visceral é considerada a mais importante e severa forma de Leishmaniose e é também a forma mais comumente encontrada em canídeos infetados (Abrham et al, 2016). Nos canídeos os sinais clínicos mais comuns associados a esta parasitose são a perda de peso, alopécia, anemia, linfoadenomegalia, crescimento anormal das unhas, úlceras, atrofia muscular, entre outros (Abrham et al, 2016). Normalmente o diagnóstico de Leishmaniose não é fácil, uma vez que a doença pode aparecer com várias apresentações clínicas, que podem induzir a que o primeiro diagnóstico não seja o desta doença (Abrham et al, 2016).
O diagnóstico definitivo é obtido através da observação direta dos parasitas em esfregaços de punções de fígado, linfonodos e medula óssea, através de testes serológicos ou ainda através de métodos moleculares como o PCR (Abrham et al, 2016). A observação direta dos parasitas é um exame de fácil acesso e económico, contudo a sua sensibilidade não é muito elevada uma vez que a observação de parasitas é limitada, especialmente em casos de animais assintomáticos ou com uma baixa percentagem de parasitas (Abrham et al, 2016). Os testes serológicos são os mais rotineiramente utilizados uma vez que oferecem uma boa sensibilidade e especificidade, no entanto, a imunofluorescência (Immunofluorescence assays – IFA) é considerado como o golden standardpara o diagnóstico de Leishmaniose (Abrham et al, 2016).
A forma mais comum de transmissão do parasita para os hospedeiros é através da picada de um flebótomo da família Psychodidae, sendo que as espécies e subespécies dePhlebotomuse Lutzomyiasão os considerados mais importantes por transmitirem o parasita para o Homem (Camargo at al, 2006). Apenas as fêmeas destas espécies são capazes de transmitir o parasita uma vez que apenas estas são hematófagas, possibilitando desta forma a nutrição suficiente para a maturação dos ovos (Camargo at al, 2006). As fêmeas destas espécies são normalmente mais ativas durante a noite e normalmente durante este mesmo período ocorre a alimentação, ingerindo sangue dos hospedeiros (Abrham et al, 2016). Estes vetores são também mais ativos durante as épocas de chuvas e de maior humidade (Abrham et al, 2016). Ciclo de vida
O ciclo de vida da Leishmaniaé complexo e compreende dois estadios básicos: um extracelular dentro do hospedeiro intermediário, neste caso o vetor e outro dentro do hospedeiro definitivo (Assimina et al, 2008). O parasita existe em duas principais formas morfológicas: a amastigota e a promastigota, que são encontradas no hospedeiro definitivo e intermediário, respetivamente (Assimina et al, 2008).
O ciclo começa quando a fêmea da espécie Phlebotomusou Lutzomyiainfetada se alimenta do sangue de um possível hospedeiro definitivo (Assimina et al, 2008), sendo que a mesma possuí um aparelho bucal, introduzido entre as camadas teciduais e que permite que esta se alimente de sangue de pequenos vasos periféricos (Assimina et al, 2008).
Nas suas glândulas salivares encontra-se a forma promastigota de Leishmania, que é introduzida dentro da pele enquanto o vetor se alimenta (Assimina et al, 2008). As formas promastigotas são consideradas extracelulares e flageladas (Assimina et al, 2008). As formas promastigotas, uma vez no organismo do hospedeiro definitivo, são fagocitadas por macrófagos permitindo a evolução do parasita para a forma amastigota considerada intracelular e não flagelada, começando assim a reproduzir-se através de divisão binária (Assimina et al, 2008). Esta multiplicação sucede dentro dos macrófagos até que ocorre lise celular permitindo a libertação das formas amastigotas para a circulação sanguínea (Abrham et al, 2016). Daí, vão invadir outros monócitos e macrófagos do baço, fígado, medula óssea, linfonodos e outras células reticuloendoteliais (Abrham et al, 2016).
O ciclo diz-se completo quando um vetor não infetado se alimenta do sangue de um hospedeiro infetado, ingerindo assim as formas amastigotas, que vão migrar até ao aparelho gastrointestinal deste vetor e vão aí sofrer várias transformações até atingirem a forma promastigota (Assimina et al, 2008). Estas formas vão posteriormente migrar até à laringe e cavidade bucal do vetor, ficando armazenadas nas glândulas salivares, permitindo a suatransmissão ao hospedeiro definitivo aquando de uma nova alimentação do vetor (Abrham et al 2016).
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Epidemiologia:
A maioria dos casos de leishmaniose visceral ocorrem principalmente na zona este de África tais como Etiópia, Quénia e Sudão (WHO, 2018) e levam a elevadas taxas de morbilidade e mortalidade. Contrariamente, os casos de leishmaniose cutânea ocorrem principalmente no Afeganistão, Síria, Perú, Brasil, entre outros (WHO, 2018).
Efetivamente, as parasitoses transmitidas por espécies ou subespécies de Phlebotomusocorrem essencialmente no “Mundo Velho”, referindo-se a África, Ásia e Europa enquanto as transmitidas porLutzomyiaocorrem essencialmente no “Mundo Novo”, referindo-se à América do Norte e Sul (Assimina et al, 2008).
Tratamento:
Apesar de haver tratamento contra a Leishmaniose, esta raramente resulta na eliminação total dos parasitas e as recorrências são frequentes (Abrham et al, 2016). Normalmente antes de se iniciar um tratamento, é importante a realização de um bom exame físico bem como hemograma e análises bioquímicas que avaliem a função renal e hepática. Além disso uma urianálise deve ser também realizada (Abrham et al, 2016). O principal fármaco utilizado no tratamento desta doença é o antimoniato de N-metilglutamina. O aluporinol é outro fármaco utlizado no tratamento a longo prazo ou então em casos de animais que se encontrem muito debilitados para receber o antimoniato de N-metilglutamina (Abrham et al, 2016).
Controlo:
A leishmaniose canina é uma das doenças parasitárias transmitidas por vetores mais negligenciadas em termos de controlo, ocorrendo em todos os continentes, exceto Oceânia (Abrham et al, 2016). Além disso, a infeção pode ser assintomática, o que facilita a sua disseminação, uma vez que não é controlada (Abrham et al, 2016). Resumindo, é necessário ter em conta vários aspetos no que toca a prevenção e profilaxia desta doença.
· É importante o controlo do vetoratravés de vários métodos:
1. Uso de inseticidas adequado para o controlo deste vetor, normalmente em materiais impregnados com estes mesmos inseticidas (Assimina et al, 2008);
2. Uso de redes anti-insetos e ter janelas ou portas de casa fechadas de modo a evitar a entrada do vetor dentro das habitações (Assimina et al, 2008);
3. Adequado saneamento e tratamento de resíduos e águas (Assimina et al, 2008).
· E evitar a transmissão para o hospedeiro definitivo, como os canídeosatravés:
1. Aplicação de coleiras antiparasitárias em canídeos (Assimina et al, 2008);
2. Evitar estar fora da habitação durante a noite, uma vez que os vetores encontram-se mais ativos durante este período, aumentando a probabilidade de ocorrer transmissão através da picada (Assimina et al, 2008);
3. Aplicação de vacinas, mesmo com 75% de eficácia, esta desencadeia uma resposta imunitária mais forte e poderá impedir a disseminação do parasita pelo organismo e é importante ter em conta que apenas cães não infetados devem ser vacinados, sendo por isso importante a realização de um teste serológico.
Bibliografia:
· Assimina, Zavitsanou, Koutis Charilous, e Babatsikou Fotoula. «Leishmaniasis: An overlooked public health concern.»HSJ – Health Science Journal, 2008.
· Ayele, Abrham, e Zewdu Seyoum. «AReview on Canine Leishmaniasis; Etiology, Clinical Sign, Pathogenesis, Treatment and Control Methods». Global Veterinaria, Setembro de 2016.
· Camargo, L. B., e H. Langoni. «Impact of Leishmaniasis on public health». J. Venom. Anim. Toxins incl. Trop. Dis., 2006
· WHO “World Health Organization” – acedido a 8 de Setembro de 2018 em:http://www.who.int/leishmaniasis/en/