O que são colónias de gatos?

Estima-se que cerca de 80% da população mundial de gatos vive nas ruas como gatos silvestres ou assilvestrados. Neste último grupo, os animais vivem nas ruas integrados no meio ambiente citadino ou rural, sendo alimentados pelo ser humano, direta ou indiretamente. A diferença entre gatos silvestres e gatos assilvestrados é que os primeiros nasceram na rua, sem socialização com o Homem, enquanto que os segundos já tiveram um tutor, mas ou perderam-se ou foram abandonados e acabaram por adoptar comportamentos dos gatos silvestres. (Carolina Rebelo, 2019)

Estes gatos podem-se juntar num lugar onde lhes é proporcionada alimentação, originando colónias felinas.

A 23 de agosto de 2016, foi lançada a Lei nº27/2016, onde nela consta a proibição da occisão (eutanásia) de animais em centros de recolha oficial por motivos sobre populacionais, de sobrelotação ou de incapacidade económica, no entanto, esta proibição vigora desde 23 de setembro de 2018. De forma a controlar os animais errantes, cabe aos centros de recolha oficial de cada Município assegurar a sua captura, vacinação e esterilização. No caso particular dos gatos, devem implementar o programa de captura, esterilização e devolução (CED), sendo que estes procedimentos são realizados no âmbito da Saúde Pública. (Carolina Rebelo, 2019)

De que forma afetam a saúde pública

As colónias de gatos por norma passam despercebidas, pois estes animais são muito esquivos e de hábitos noturnos, sendo mais toleradas pela população. No entanto, se não forem devidamente controladas podem originar vários problemas:  acumulação de alimentos e de resíduos orgânicos; danos causados a bens materiais; o lamentável aspeto dos animais; ruído provocado durante o cio e lutas territoriais; maus cheiros de urina derivados da marcação de território; presença de pragas; risco para a saúde pública (nalguns locais); risco para a sua segurança e risco ambiental. (Carolina Rebelo, 2019)

O maior problema associado aos gatos vadios é o impacto que podem ter na saúde Pública e na fauna silvestre, quer seja por doenças zoonóticas, doenças não zoonóticas e ainda por predação. O controlo das colónias felinas, por parte dos municípios, evita este tipo de problemas. (Carolina Rebelo, 2019)

Doenças

Doenças infecciosas

·         Panleucopenia

·         Peritonite Infecciosa Felina (PIF)

·         Complexo respiratório felino

·         Feline Imunodeficiency Virus (FIV)

·         Feline Leokemia Virus (FELV)

Doenças Parasitárias

·         Coccidiose, criptosporidiose, sarcocistiose, giardiose

·         Trematodas e céstodas intestinais

·         Toxoplasmose

·         Tinha

·         Infestações por pulgas

(Carolina Rebelo, 2019)

Problema sanitário

Entre as colónias e os animais domésticos. Alguns casos de doenças transmissíveis aos gatos domésticos devem-se ao contacto destes com indivíduos de colónias. (Antonio Blázquez Martin, 2016)

A relação destes gatos com o ser humano é muito mais ténue, pois estes animais tendem a fugir dos humanos. Desta forma, é através do seu contacto com os animais domésticos que as zoonoses chegam às pessoas. Estas doenças também se podem transmitir mecanicamente, pela ingestão acidental de oocistos de parasitas. Este é um caso muito comum que ocorre com as crianças, que brincam nos parques infantis ou com os seus animais em casa e levam as mãos à boca, ingerindo os oocistos de alguns parasitas acidentalmente. (Antonio Blázquez Martin, 2016)

Problema meio-ambiental

Os gatos silvestres são animais que conseguem caçar relativamente bem, podendo infligir graves danos à flora silvestre através da predação. Se tiverem fontes de alimento externas adicionais à caça, os danos causados serão maiores na fauna visto que terão mais forças para exercerem tal atividade. (Antonio Blázquez Martin, 2016)

Medidas tomadas

Para se controlar as colónias, os Municípios, juntamente com outras associações zoófilas criaram um sistema eficaz que permite:

a)     Identificar e capturar os animais perdidos ou abandonados;

b)     Encetar diligências para encontrar os tutores dos gatos perdidos;

c)     Ou caso tal não venha a ser possível, encontrar-lhes um novo lar.

Em regra, esses planos encontram-se regulamentados pelos Municípios e incidem sobre as seguintes matérias:

·         Proibição de pessoas não autorizadas alimentarem gatos de rua: evita-se a dispersão dos pontos de alimentação, facilitando o controlo e captura dos gatos para esterilização e administração de cuidados médicos sempre que necessário. Garante-se uma alimentação adequada e equilibrada.

·         Identificação e formação dos cuidadores de colónias.

·         Adequação do plano de voluntariado ao controlo das colónias.

·         Protocolo de programa CED, com identificação das colónias e dos animais que as compõem. Uma colónia cuidada e controlada melhora a condição de vida dos gatos.

Sandra Horta e Silva, 2019

CED (Capturar, Esterilizar e Devolver)

O programa CED é o único método que se mostrou eficaz no controlo do crescimento da população de gatos vadios. Implica que se capture todos ou a maioria dos gatos de uma colónia, sejam esterilizados e devolvidos ao seu território. Esta técnica estabiliza de imediato o tamanho de uma colónia se pelo menos 70% dos adultos férteis forem esterilizados. Se todos os elementos forem esterilizados, haverá um declínio gradual da colónia, continuando presente controlando algumas pragas nomeadamente os roedores. (Antonio Blázquez Martin, 2016)

Em Portugal, apenas em 2015 o CED foi aceite de forma estruturada, quando a DGAV lança uma nota de esclarecimento que considera este programa um método humanitário e eficaz de controlo de colónias de gatos vadios e de redução da população felina silvestre. A 23 de agosto de 2016, saiu a Lei nº 27/1016 que pôs fim à ilegalidade deste procedimento. Ana Leonardo, 2019)

Tendo em conta o número elevado de colónias e de animais existentes nos diversos Municípios, estes apoiam-se em outras instituições realizando protocolos com associações que colaboram nas capturas e centros médico veterinários onde possam ser realizadas as intervenções cirúrgicas. (Ana Leonardo, 2019)

O CED pode ser dividido em várias fases:

Sinalização – pode ser feita e estimada recorrendo a meios humanos da própria Câmara, Associações ou através da receção de reclamações/requerimentos efetuados pelos próprios munícipes. (Ana Leonardo, 2019)

Pré-captura

Antes da captura dos gatos, deve-se fazer visitas às colónias, de forma a que se determine a ordem de intervenção, não só pela sequência de chegada como também pela urgência de intervenção. Nestas primeiras visitas, avalia-se o número de animais, de machos, fêmeas, grávidas e ninhadas, o estado de saúde dos mesmos e delimitação territorial da colónia, assim como horários e tipo de alimentação. É avaliado o terreno, para se determinar que material de captura será utilizado, e o comportamento e temperamento dos animais, de forma a escolher o melhor método de captura. (Ana Leonardo, 2019)

Os locais onde a presença de gatos representa um risco significativo para a saúde e segurança do meio ambiente (hospitais, rodovias, escolas etc.) serão descartados para reintrodução. Nestes casos, os animais devem ser capturados e libertados noutras áreas. (Antonio Blázquez Martin, 2016)

Nestas visitas, também se identifica o cuidador da colónia, de forma a facilitar todo o procedimento. Para que estes possam ser considerados cuidadores certificados pelo município devem realizar ações de formação. (Ana Leonardo, 2019)

Captura

Em articulação com os cuidadores, é combinado o dia e a hora mais favoráveis para se efetuarem as capturas, sendo obrigatório a existência do jejum mínimo de 24h. Deve ser realizada uma visita à colónia no dia anterior ao da captura e à hora da alimentação. No dia da ação é possível confirmar a avaliação anteriormente feita, e reunir os dados fidedignos para os ficheiros de registo das colónias onde são introduzidos: o número de animais esperados, o número de fêmeas e de machos estimados, fêmeas e machos esterilizados, fêmeas gestantes e animais em tratamento ou intervenção médica. (Ana Leonardo, 2019); (Antonio Blázquez Martin, 2016)

A captura dos animais deve ser feita da maneira mais rápida e discreta possível, garantindo que a captura dos primeiros não alerte os próximos. Para isso, começará com aqueles gatos que pacificamente se deixam apanhar por pessoas que costumam manter contato direto com eles. A seguir, serão colocadas as armadilhas adequadas a cada situação, de forma a apanhar os que não se conseguiram capturar “à mão”. Por fim, se for considerado conveniente e avaliando o seu risco, serão utilizados sedativos ou anestésicos, controlados a todo o momento por médicos veterinários, para recolher aqueles que de outra forma não possam ser capturados. Para a captura com gaiolas-armadilha é muito importante manter as gaiolas abertas vários dias, com os mecanismos de fecho das portas bloqueados e colocando a comida no interior, para que os gatos se habituem a entrar nelas. É muito útil colocar algodões impregnados com feromonas sintéticas ou fluídos vaginais de fêmeas no cio que atraem indivíduos. Depois de capturados, esses animais serão transferidos para o Centro Veterinário onde serão operados e avaliados. (Antonio Blázquez Martin, 2016)

Quando são capturados e esterilizados todos os animais estimados, a colónia é dada como encerrada. (Ana Leonardo, 2019)

Procedimento Médico-veterinário

No centro veterinário e por meio de exame geral, será avaliado o estado de saúde de cada gato, bem como sua sociabilidade, sempre levando em consideração o stress gerado durante a captura. Serão realizados exames de leucemia e imunodeficiência, exames de fezes, etc. por meio de um teste rápido, a fim de avaliar o nível sanitário do indivíduo e da colónia. Os gatos que apresentarem resultado positivo para doenças importantes ou como resultado de exame veterinário, a inviabilidade sanitária deles for determinada, eles serão eutanasiados humanamente. (Antonio Blázquez Martin, 2016)

A intervenção deve ser sempre realizada por um profissional veterinário. Orquiectomias e ovariectomias têm sido tradicionalmente realizadas, embora ultimamente a vasectomia tenha sido realizada em machos. A participação de Médicos Veterinários clínicos nestes programas deve ser condição indispensável para sua aprovação e autorização. É importante identificar cada animal esterilizado, realizando o pequeno corte na orelha esquerda e identificando-os eletronicamente, registando em nome do município e listados das respetivas colônias. A manutenção de gatos em condições de hospitalização é estimada em 48 horas para machos e 8 dias para fêmeas e em qualquer caso nunca será menos tempo do que o necessário para garantir a perfeita saúde do animal. (Antonio Blázquez Martin, 2016)

Animais sociáveis ​​podem ser entregues para adoção por famílias que podem mantê-los em perfeitas condições.

Os outros gatos serão devolvidos aos locais de origem (ou novos locais) assim que possível após a limpeza do local. A introdução de gatos em colônias diferentes das originais não é recomendada, exceto em casos de força maior, apenas em outras colônias já protegidas e sempre após um período de adaptação. A limpeza, se necessário, terá tratamentos desinfetantes que atendam às necessidades de higiene adequada. Será alocada uma área que servirá para instalar bebedouros, comedouros e abrigos apropriados para que possam descansar e se abrigar das intempéries. (Antonio Blázquez Martin, 2016)

Fase de monitorização

O cuidador assume um papel fundamental, ficando incumbido de manter os espaços limpos, sem resíduos ou restos de comida, mantendo a salubridade do espaço e a segurança quer dos animais, quer das pessoas, evitando a proliferação de pragas e a aproximação de outros animais estranhos à colónia. (Ana Leonardo, 2019)

ONDAID-OBSERVATÓRIO NACIONAL PARA A DEFESA DOS ANIMAIS E INTERESES DIFUSOS, Horta e Silva, S., & Leonardo, A. (2019). Workshop-AnimaisEmMunicipios-Nov2019.pdf. https://www.mun-setubal.pt/wp-content/uploads/2019/12/Workshop-AnimaisEmMunicipios-Nov2019.pdf.

Martin, A. B. (2016, March). Colonias de gatos urbanos: problema sanitario y social. BadajozVeterinaria2