Burro Mirandês – Conservação

Em Portugal existem diversas espécies animais típicas do país, em particular de cada região, ditas autóctones, desde bovinos (raça Alentejana), suínos (raça Bísara), ovinos (raça Merina), caprinos (raça Algarvia), equinos (raça Lusitano), aves (raça Pedrês).

O planalto de Miranda não é exceção, tendo como espécie autóctone da região o Burro de Miranda ou Burro Mirandês.

Burro Mirandês

O burro Mirandês encontra-se na região de Miranda e tem-se mantido conservado na zona durante o passar dos tempos devido à forte tradição da terra em utilizar o asinino nos trabalhos agrícolas.

O burro de Miranda apresenta uma pelagem predominantemente castanha e comprida, com manchas brancas em redor dos olhos e focinho. Na zona lombardos costados e dorso e da barriga tem coloração mais clara.

Apresenta-se como um animal robusto e corpulento. Mede, em média, mais de 1,2m, sendo a altura ideal de 1,35m.

A crina é abundante e tem pêlos longos na base das orelhas, entre-ganachas, face e zona distal dos membros. Possui uma cabeça volumosa e ganachuda de perfil reto, orelhas grandes e largas na base, cobertas com bastante pêlo, e a sua ponta é arredondada. Andamentos de grande amplitude, mas lentos e pouco ágeis.

Os asininos vivem cerca de 15 anos no meio selvagem e uma média de 30 a 35 anos como animal de companhia. Estes animais são considerados adultos quando atingem os 3 anos de idade, sendo considerados idosos sensivelmente aos 20 anos.

Funções

São animais utilizados essencialmente para tração, sela e carga a dorso. Têm aptidão especial para lavoura tradicional e são utilizados ainda, mesmo que em forma residual, para a produção de moares.

No entanto, hoje em dia, têm novas aplicações relacionadas  com atividades de turismo sustentável, pedagógicas, terapêuticas, de manutenção de biodiversidade ou como animal de companhia. Uma nova e possível função para o burro de Miranda será a produção leiteira pois, vários estudos têm sido feitos visando a  qualidade para confeção de cosméticos e produtos farmacêuticos mas, também como substituto do leite materno humano. Embora a ideia tenha sido recebida com entusiasmo, existem várias implicações neste tipo de exploração, nomeadamente, o bem estar animal.

Risco de extinção

A espécie asinina está em declínio por toda a Europa, não sendo exceção o burro Mirandês. Tal deve-se à mecanização dos trabalhos agrícolas e ao abandono do meio rural e da agricultura de subsistência, levando ao desaparecimento de valores culturais e tradicionais. Além disso, a população que se encontra no ninho da raça é uma população envelhecida e, portanto, bastante idosa para trabalhar no campo e para tratar de um burro.

A acrescentar a estas causas,  há a idade avançada das burras, provocando uma diminuição da taxa de fertilidade, a fraca disponibilidade de machos reprodutores pois, são poucos, dado à sua  agressividade e desvantajosos  para o trabalho (ao contrário dos machos castrados); dificuldade no transporte de e para os locais de cobrição, e por último, a mistura de várias variedades de burros, perdendo-se as características específicas desta raça.  

Atualmente, existem cerca de 850 fêmeas reprodutoras e 50 machos disponíveis, podendo este número ser inferior.

Recuperação

Felizmente, esta raça asinina tem recebido cada vez mais reconhecimento, de norte a sul do país, e além fronteiras. Por ser um animal bonito e dócil, é cativante para o público, quer seja em breves interações quer seja por curiosidade de conhecer e querer preservar a raça. 

No entanto, na sua zona de origem (concelhos de Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro, no planalto Mirandês) é onde tem a  maior importância: onde se encontra a grande maioria dos criadores, que para além de  utilizarem o burro para o trabalho agrícola, consideram-no um símbolo da região, sendo um motivo de orgulho para os locais, especialmente os jovens.

A 9 de maio de 2001, foi criada a Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA) para manter e proteger esta raça e os burros em geral.

Para tal, esta associação dedica-se à realização de estudos técnico-científicos que visam a preservação do património genético da raça, em particular, o estudo dos níveis de consanguinidade, reconhecimento e recuperação de antigas características reprodutivas e de maneio da raça a médio-longo prazo; seleção dos futuros reprodutores que melhores características fornecerão aos seus descendentes; sensibilizar e formar criadores para a obtenção de melhores exemplares da raça; valorizar e dignificar a raça como animais de companhia, animal de trabalho e de transporte; promover uma série de eventos. Além disso, estão a desenvolver um banco de DNA de todos os animais pertencentes ao livro genealógico da raça, de modo a preservar este património genético.

A estratégia de conservação e melhoramento do animal assenta, essencialmente, na relação entre o criador, o território e o animal.

Apesar de ainda não estar fora de risco a longo prazo, o balanço dos esforços de conservação do burro de Miranda é positivo. Houve um aumento de nascimentos (10 em 2002 para cerca de 110 em 2017), surgiram  novos proprietários, tanto   no berço da raça como  fora, que promovem o seu uso para turismo, atividades assistidas  e educação. A AEPGA tem conseguido também fornecer apoio veterinário a mais animais, sensibilizando os criadores para a importância da garantia do bem estar dos burros. No geral, tem-se notado uma alteração  da atitude face ao burro, sendo cada vez mais visto com carinho e respeito e não apenas uma ferramentade trabalho, fruto dos esforços desta associação para a dignificação desta espécie.

Bem estar

Sendo um animal resistente e bem adaptado aos ambientes mais agrestes (necessidade evolutiva de não demonstrar sofrimento na natureza)  esconde  os seus problemas, passando  despercebido àqueles que não conhecem os seus comportamentos naturais.

Um burro saudável e feliz deverá: ter as orelhas levantadas, movimentar facilmente, ter um olhar vivo, e interagir com o meio envolvente. Deverá deitar-se para se espojar e levantar-se sem dificuldade. O burro deve ter sempre água à disposição, e alimento de qualidade (palha/feno) e um bloco de minerais. É expectável que passe grande parte do tempo a pastar e a comer. Se pelo contrário, o burro estiver com algum problema de saúde, os principais sinais de alerta são orelhas caídas, perda de apetite, levantar-se com ajuda, permanecer muito tempo deitado e mostrar relutância a mover-se.

De forma a garantir o bem-estar destes animais, deve ser fornecida uma pastagem de pelo menos meio hectare ( foi sem querer)  (por animal) e um abrigo. Este abrigo deve ser arejado, sem  correntes de ar e que não permita a entrada de chuva. Deve ser limpo com  frequência, de forma a tornar o local mais higiénico e prevenir o aparecimento de doenças. Além disso, o burro é um animal gregário, pelo que deve ter a companhia de outro animal, podendo este ser outro burro, uma ovelha, um cavalo, uma cabra ou um cão, por exemplo.

Deve ainda ser escovado todos os dias, de forma a detetar a presença de ectoparasitas ou lesões escondidas no  pêlo, a limpeza de cascos deve ser feita várias vezes por semana e o aparo destes deve ser feito por um ferrador a cada 2 ou 3 meses. Os dentes dos burros, por estarem em constante erupção, devem ser vigiados, evitando que pequenos problemas se compliquem. Além disso, a vacinação e a desparasitação  devem ser cumpridas.

As limitações  físicas dos burros devem ser sempre respeitadas, sendo que nenhum animal com idade inferior a 4 anos deverá ser montado ou carregado (devido ao seu esqueleto ainda se encontrar em desenvolvimento), e nenhum burro deve carregar mais do que um terço do seu peso corporal, sendo que a carga deve ser aliviada consoante a distância a percorrer e a dificuldade do caminho.

Um dos principais focos desta organização, para além da conservação desta espécie asinina, é garantir a saúde e bem estar dos animais. Para tal, a AEPGA leva a cabo anualmente o programa de sanidade e bem estar de asininos no Nordeste Transmontano. Este serviço garante um ferrador e um médico veterinário ao domicílio, deslocando-se de aldeia em aldeia com frequência.

Muito deste trabalho tem sido realizado em parceria com o Centro de Acolhimento do Burro, um espaço gerido pela AEPGA onde animais idosos, mas também em situações de abandono e maus-tratos, são recolhidos e recebem tratamento médico-veterinário diáriamente. Situado na aldeia de Pena Branca, em Miranda do Douro, este centro recebe o apoio da fundação inglesa The Donkey Sanctuary.

Queres saber mais sobre esta espécie? Vai à página de Facebook “AEPGA – Associação de estudo e proteção do gado Asinino”, ao site AEPGA.pt e descobre tudo sobre o Burro Mirandês!