O porquê de as doenças respiratórias serem importantes em bovinos

Numa exploração de bovinos, existem diversos fatores que podem afetar o seu bem estar e, posteriormente, terem efeitos negativos na saúde e produtividade. Um desses fatores são as doenças dos animais, principalmente as respiratórias, sendo das mais significativas nestas explorações do ponto de vista económico.

Complexo de Doenças Respiratórias Bovinas  é o termo usado para qualquer doença que afete o trato respiratório superior (ex: bronquite, rinite, traqueíte) ou inferior (ex: pneumonia) dos bovinos. Trata-se de um complexo de doenças originadas pelo desequilíbrio entre as defesas naturais dos animais e os fatores externos que favorecem a doença. Geralmente afeta vitelos nas primeiras 4 semanas após o desmame e pode ser fatal, mas também afeta animais que apresentem níveis de stress elevados. O stress interfere nos mecanismos de defesa do aparelho respiratório, resultando na proliferação de microrganismos oportunistas e patogénicos, assim como a produção de toxinas (LAVAL, A, CARRAUD, A, FILLETON, R, 1994).

As doenças respiratórias podem ter vários impactos negativos, especialmente no primeiro trimestre de vida, podendo apresentar efeitos adversos na sobrevivência e posteriormente no crescimento dos vitelos (LAVAL, A, CARRAUD, A, FILLETON, R, 1994). Quanto aos impactos económicos, as perdas estão associadas à mortalidade, morbilidade, gasto em tratamentos dispendiosos, diminuição da performance dos animais e diminuição da qualidade da carcaça (no caso dos bovinos de carne, existe diminuição do ganho de peso, cerca de 0,07-0,20 Kg/animal/dia) (Loneragan et al. 2001).

Os bovinos são particularmente susceptíveis a este tipo de patologias devido à constante exposição a agentes agressores e à sua anatomia respiratória, em particular, da sua árvore respiratória (MOSIER, 1997; RADOSTITS et al., 2002). As causas de manifestação de doenças respiratórias serão abordadas posteriormente..

Apesar de existirem medidas de profilaxia, e prevenção, a pneumonia enzoótica permanece como a causa mais importante de mortalidade de bezerros durante os primeiros dois meses de vida (Gagea et al. 2006).

Qual a doença respiratória mais comum?

A pneumonia caracteriza-se por ser a doença respiratória com mais significado, afetando principalmente animais jovens (AMES, 1997; HARTEL et al., 2004). Geralmente, os episódios da doença ocorrem até aos dois anos de idade dos animais, sendo a grande maioria até ao período do desmame (CROWE, 2001; MAILLARD et al., 2006).

Pneumonia

A Pneumonia pode apresentar quadros clínicos que variam de crónicos até agudos, podendo mesmo ser fatal. Nesta espécie, as pneumonias mais importantes são as intersticiais e as broncopneumonias (ANDREWS et al, 1992; RADOSTITS et al., 2002), sendo estas últimas responsáveis por 80% dos casos de doença (ANDREWS et al, 1992; REBHUN, 2000).

A pneumonia intersticial produz uma lesão caracterizada por inflamação difusa do parênquima pulmonar. Pode ocorrer por causas não infecciosas, tais como inalação de toxinas e alergéneos, podendo também ter etiologia infecciosa como por exemplo o vírus Parainfluenza-3 (PI-3), sincicial respiratório bovino (VSRB) e o vírus da Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (IBR) (WISKE, 1985; CONTRAN et al., 1999; COUTINHO,2004). Já a broncopneumonia é caracterizada por alteração inflamatória dos brônquios, bronquíolos, parênquima pulmonar e pleura devido à invasão pulmonar por agentes infecciosos, bacterianos ou virais, transportados por via aérea (RADOSTITS et al., 2002; GONÇALVES et al., 2001). Existe ainda a pneumonia metastática, causada pela embolização séptica dos pulmões, como infeções umbilicais e abcessos hepáticos (COUTINHO,2004). É a patologia respiratória mais frequente em bezerros, com incidência na ordem de 8,7% (TAVERA et al., 1982)a 9,8% (CURTIS et al., 1985), podendo chegar a 15% (ANDREWS et al, 1981).

As pneumonias ocorrem principalmente durante a época seca sendo transmitidas por via aérea ou através do  contacto com secreções de animais contaminados.

O processo pelo qual a patologia se desenvolve varia com os agentes e sua virulência, assim como a porta de entrada da infeção (RADOSTITS et al., 2002). Quando são introduzidas bactérias pela via aérea, causam uma bronquite primária aguda que se dissemina até envolver o parênquima pulmonar. A disseminação da lesão inflamatória pelos pulmões acontece por continuidade, mas também pela passagem de material infeccioso ao longo dos bronquíolos e vasos linfáticos. A propagação pelas vias aéreas é favorecida pela tosse. O resultado de todo este processo é a ocorrência de lesões pulmonares que variam de fibrinosas, necrosantes, caseosas a granulomatosas, em função do agente etiológico envolvido. Quando a infeção bacteriana se dá por via hematógena, resultam vários focos sépticos que podem evoluir para abcessos pulmonares. Quando o abcesso rompe no interior das vias aéreas, alastra-se como broncopneumonia secundária (REBHUN, 2000; RADOSTITS et al., 2002). Os vírus normalmente introduzem-se no organismo por inalação, causando bronquiolite primária, disseminando-se para os alvéolos, provocando hipertrofia e hiperplasia do epitélio alveolar e edema, culminando com o espessamento do tecido intersticial e agregados linfocíticos ao redor dos alvéolos, vasos sanguíneos e bronquíolos (REBHUN, 2000; RADOSTITS et al., 2002; VALARCHER e HAGGLUND, 2006). Independentemente do modo de desenvolvimento da lesão, a fisiopatologia da pneumonia interfere nas trocas gasosas entre os alvéolos e o sangue, levando a anoxia e hipercapnia, o que provoca taquipneia ou dispneia na dependência da quantidade de tecido respiratório afetado (REBHUN, 2000; RADOSTITS et al., 2002).

Principais causas

Em Portugal, a incidência de doenças respiratórias é muito elevada, principalmente de pneumonias, já que resulta da conjugação de vários fatores (etiologia multifatorial: infecciosos, ambientais e íntrisecos ao hospedeiro). Consequentemente, provoca imunossupressão (BOWLAND e SHEWEN, 2000),possibilitando a transmissão de agentes infecciosos (vírus) e a proliferação de bactérias da flora comensal dos ruminantes. Dos fatores ambientais e de maneio, a superlotação, mistura de animais de idades e níveis imunológicos diferentes no mesmo parque, condições climáticas adversas (frio, calor, humidade, chuva), instalações com pouco ventilação, elevadas concentrações de poluentes e agentes patogénicos no ar, alimentação desadequada ou mudanças bruscas na alimentação, elevada carga parasitária, desmame e transporte (WALTNER-TOEWS et al., 1986; CALLAN e GARRY, 2002; SVENSSON e LIBERG, 2006; SNOWDER et al, 2006). Dos fatores internos, a destacar temos a anatomia do pulmão dos bovinos, que tornam os bovinos suscetíveis a doenças respiratórias . Ausência de ventilação colateral interalveolar e interbronquiolar, alta taxa de ventilação e forte resistência ao fluxo de ar no interior das vias aéreas inferiores, são causas para esta suscetibilidade (LEKEUX, 1994). Idade, stress, alterações nutricionais e o estado imunológico dos próprios animais são também fatores predisponentes para o aparecimento de doenças do complexo respiratório bovino (SNOWDER et al, 2006).

Estas condições mencionadas podem levar à quebra do equilíbrio do sistema imune, resultando na proliferação de agentes virais oportunistas. O complexo respiratório bovino, ou pneumonia enzoótica, é causado por um conjunto de agentes etiológicos, dentre os mais importantes são o vírus respiratório sincicial bovino (BRSV), seguido pelo vírus da parainfluenza bovina (BPIV-3), vírus da rinotraqueíte infecciosa bovina (IBR), vírus da diarreia viral bovina (BVDV), herpesvirus bovino-1 (BoHV-1) e adenovírus bovino A-D (BadV-A-D)(. Podem ainda ocorrer infecções por bactérias como Mannheimia haemolyticaPasteurella multocidaHistophilus somniMycoplasma bovis, Pasteurella haenolytica e Salmonella typhimutium (SNOWDER et al, 2006; DRIEMEIER & MOOJEM, 2007; FULTON et al, 2009). O agente infecioso mais frequente é a pasteurella haemolytica. Este microrganismo é considerado comensal das cavidades nasais dos bovinos saudáveis (GAVA, 1999).

O stress infeccioso causado por infeções por micoplasmas ou pelos vírus acima referidos, pode também criar condições para que as bactérias pertencentes à flora normal das vias respiratórias anteriores de bovinos saudáveis se multipliquem e que invadam a parte inferior do trato respiratório, zona normalmente estéril. Em caso de superlotação, mesmo que curta, há um aumento da humidade do ar, aumentando a tempo de sobrevivência dos agentes patogénicos presentes no ar. Durante este período de stress, o sistema imunitário dos bezerros fica enfraquecido e, as bactérias presentes no animal terão oportunidade de se multiplicarem intensamente (GAVA, 1999). Na maioria das vezes, é difícil estabelecer uma causa etiológica definitiva para as afeções pulmonares (COUTINHO,2004).

Sintomas e diagnóstico

A broncopneumonia é acompanhada por tosse húmida e dolorosa. Na pneumonia intersticial, a tosse é geralmente seca, estridente e curta. A auscultação do tórax antes e após a tosse pode revelar sons crepitantes e ásperos, sugerindo a presença de exsudado nas vias aéreas (HINCHCLIFF e BYRNE, 1991; GONÇALVES et al., 2001;RADOSTITS et al., 2002. Taquipneia, dispneia, sons submaciços ou maciços. A deposição de secreções espessas nas vias aéreas determina modificações no fluxo de ar, provocando vibrações de tons mais graves, denominados roncos (KOTTLIKOFF e GILLESPIE, 1984; GONÇALVES et al., 2001), ou mais agudos, chamados sibilos (KOTTLIKOFF e GILLESPIE, 1984; STOBER, 1993; GOMÇALVES et al., 2001), identificando as bronquites (STOBER, 1993). Secreção nasal pode ou não estar presente conforme a quantidade de exsudato nos  a existência ou não de inflamação do trato respiratório superior (WILSON e LOFSTEDT, 1990; STOBER, 1993; GONÇALVES et al., 2001; RADOSTITS et al., 2002). O odor da respiração pode ser fétido devido ao cheiro a pus em decomposição em grandes quantidades nas vias aéreas (RADOSTITS et al., 2002). Outros sinais clínicos incluem inapetência, depressão, letargia, febre, perda de apetite, tosse, corrimento nasal, relutância em se locomover e evidência de dor torácica, que pode estar associada a pleurite concomitante (RADOSTITS et al., 2002).

Diagnóstico

O diagnóstico de pneumonias é feito com base nos sinais clínicos recolhidos. Tal como acontece em várias doenças, é comum que os animais apresentem sintomas sistémicos e inespecíficos, como febre, depressão, anorexia e letargia. A diferença entre a pneumonia e outras doenças está nos sinais mais específicos que ela desencadeia, tais como corrimento nasal mucoso a purulento, tosse, dificuldades respiratórias.

Além dos dados clínicos, podem-se fazer exames específicos complementares laboratoriais que auxiliam no diagnóstico e diferenciação de afeções pulmonares (GONÇALVES, 1997). Hemograma: fornece informações esclarecedores e pode ajudar a determinar se a infeção é viral ou bacteriana. Exame parasitológico: indicado no diagnóstico de verminose pulmonar. Diagnóstico por imagem: auxiliam na avaliação da gravidade das lesões pulmonares, efusões pleurais e aderências. Lavagem traqueobrônquica: fornece acesso ao trato respiratório inferior, permitindo a colheita de células, de material para cultura microbiológica e exames imuno-histoquímicos, permitindo assim o auxílio no diagnóstico do agente causal, determinação da gravidade da resposta inflamatória, prognóstico e tratamento. Biópsia pulmonar: indicada para obtenção de amostras teciduais para diagnóstico histológico, microbiológico e informações prognósticas, principalmente em pneumonias difusas. Necropsia: em casos em que o diagnóstico é duvidoso, a necropsia permite a recolha de material para determinar o agente etiológico e avaliar a eficácia dos medicamentos prescritos (REBHUN, 2000; RADOSTITS et al., 2002; GONÇALVES, 2004).

Tratamento

O tratamento das pneumonias é baseado no controlo da infeção, na manutenção da pressão intra-pleural, do fluxo de ar nas vias aéreas e dos mecanismos de limpeza traqueobrônquicos, e ainda na conservação das trocas gasosas e remoção de agente irritantes.

Os antimicrobianos utilizados devem preferencialmente alcançar rapidamente a corrente sanguínea e os tecidos pulmonares e manterem-se elevados no local de ação por tempo satisfatório, apresentarem amplo espectro de ação contra agentes etiológicos da pneumonia em bovinos, concentrarem-se no fluido extracelular, não se inativarem na presença de secreções e não serem tóxicos. Além disso, devem ser de fácil utilização e com doses diárias únicas para facilitar o trabalho dos tratadores. Muitas vezes utiliza-se anti-inflamatórios em conjunto com a terapêutica antimicrobiana, para reduzir a febre, a resposta inflamatória pulmonar e causar a melhoria sintomática, através do ganho de apetite e disposição do animal (MAZZUCCHELLI et al,, 1995; REBHUN, 2000; RADOSTITS et al., 20202). Também tem sido recomendado o uso de broncodilatadores e mucolíticos para melhorar a atividade do aparelho mucociliar, auxiliando na depuração pulmonar e aliviando a dificuldade respiratória (REBHUN, 2000; RADOSTITS et al., 2002). Tratando-se de pneumonia em bovinos, terapia de suporte quando necessária e a reparação das deficiências nas instalações são tão importantes quanto os tratamentos acima referidos (REBHUN, 2000). A terapia de suporte deve incluir a oxigenoterapia nos casos mais críticos (quando a hipóxia for grave), a instituição de nutrição parental ou oral forçada se o animal não estiver se alimentando e a reposição de eletrólitos. Os animais doentes devem ser mantidos em abrigos limpos, secos, ventilados, com temperatura e humidade adequados, confortáveis e livres de poeira. A alimentação deve ser palatável, sem pulverulência e a água fresca e abundante (RADOSTITS et al.; 2002).

Exemplos de medicamentos: Ciprofloxacina,associação de Sulfametoxazol e Trimetoprim, associação de Estreptomicina e Bezilpenincilina, Oxitetraciclina 20%

Prevenção

Visto que as resistências aos antimicrobianos tendem a aumentar, a prevenção das doenças é cada vez mais importante. Assim sendo, a criação de condições ambientais com um plano de biossegurança adequado que proporcionem um elevado nível de bem-estar aos animais, assim como a identificação precoce e precisa de animais doentes, assumem cada vez mais importância.

Algumas medidas acometem para a diminuição dos fatores de stress , manutenção de uma alimentação adequada, rica em nutrientes e água sempre disponível e monitorização dos sintomas de doenças respiratórias

Como diz o ditado, mais vale prevenir do que remediar.

Bibliografia

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