Neste artigo serão abordados alguns aspetos importantes relacionados com o bem-estar de animais exóticos, que devem ser tidos em consideração na manutenção destes animais em cativeiro.

Com o passar dos anos o conceito de “animais de companhia” foi sofrendo alterações. O ser humano começou a adotar animais para além do cão e gato, como aves, tartarugas, furões, coelhos, porquinhos-da-índia, entre muitos outros. Daqui nasceu a designação “novos animais de companhia”, animais exóticos que foram progressivamente sendo introduzidos no nosso dia-a-dia por curiosidade inicial e, posteriormente, pelo fornecimento de condições adequadas para a manutenção destes animais em cativeiro. O cativeiro destes animais foi não só aplicado no âmbito dos animais de companhia, mas também em contextos educacionais e científicos como jardins/parques zoológicos, safaris, laboratórios, entre outros. Compreende-se aqui, então, a necessidade de adequar o ambiente que os envolve às necessidades dos mesmos, uma vez que as condições de bem-estar variam com a espécie e com o objetivo/tipo de cativeiro.

Ainda assim, independentemente da espécie, todos os animais devem ser: livres de fome e sede; livres de desconforto; livres de dor, lesões e doença; livres para expressar o seu comportamento natural; e livres de medo e angústia (UK Farm Animal Welfare Council).

  • Natureza VS cativeiro: 

Apesar das liberdades referidas terem de ser cumpridas, é fácil de entender que na natureza os animais não se encontram constantemente em condições de bem-estar adequadas ou ideais. O facto de terem de caçar para comer, fugir de ameaças ou predadores, entre outros, são tudo situações que a curto ou longo prazo têm implicações negativas em pelo menos uma das cinco liberdades do bem-estar animal. Por esta razão, a tentativa de imitação das condições naturais muitas das vezes não é o que se pretende na manutenção de um animal exótico em cativeiro. Apesar destas condições incutirem a manifestação dos comportamentos naturais do animal podem causar níveis de stress ao mesmo o que não constitui, claramente, bem-estar e/ou tratamento ético deste.  (5,10,20)

O contexto no qual os animais são colocados em cativeiro é bastante variável, o que tem implicações importantes nas suas necessidades, dependendo tanto da espécie em questão como do propósito do cativeiro. Assim, é possível diferenciar as condições de cativeiro para “pets”, zoos e parques biológicos, laboratórios, entre outros. No contexto educacional (zoos, parques biológicos e laboratórios) normalmente procura-se recriar tanto quanto possível o habitat natural da espécie para que seja possível a manifestação dos comportamentos naturais, incluindo a componente social e ecológica. Isto permite também a obtenção de melhores resultados no âmbito laboratorial. (18)

Assim, resumidamente, os animais selvagens e os domesticados são capazes de exibir sensivelmente os mesmos comportamentos, mas a diferença está na sua extensão, sendo esta quantitativa e não qualitativa. (14,4)

Apesar da domesticação ter sido bem sucedida desde há muitos anos atrás, muitos vezes a mesma falha em pelo menos um dos seis testes de domesticação de Diamond: dieta que pode ser suplementada por humanos, com uma taxa de crescimento rápida e intervalo suficiente entre partos; disposição favorável; capacidade de procriar em cativeiro; presença de uma hierarquia adequada e manutenção de baixos níveis de stress quando mantidos em cativeiro ou diante de um predador. (7) Embora estes animais exóticos não estejam a ser necessariamente domesticados, foi demonstrado que muitas espécies podem sobreviver bem e reproduzir-se em cativeiro. No entanto, o desafio de qualquer tipo de cativeiro é proporcionar bem-estar suficiente para impedir o desenvolvimento de problemas comportamentais e clínicos significativos. (9,11).

  • Origem e transporte:

A remoção de alguns indivíduos da natureza pode ter um efeito catastrófico na viabilidade da população de origem. Apesar de isto não ser especificamente um critério de bem-estar, é uma consideração importante em termos de ética. (16)

A imobilização e captura de algumas espécies, por exemplo pássaros, pode levar a respostas ao stress tão graves que podem causar a morte do animal. O mesmo pode acontecer no processo de transporte. (2,17,8)

As regulamentações nacionais e internacionais estipulam as normas relativas ao transporte e definem condições mínimas para animais vivos. O transporte rodoviário em território nacional, por exemplo, está sujeito à Regulamentação para o “Transporte Rodoviário de Animais Vivos” (Decreto-Lei n.º 265/2007), que define as responsabilidades dos transportadores e as condições de transporte. A importação e a exportação de animais devem cumprir com as normas expressas na legislação internacional e os regulamentos de transporte. As necessidades individuais de cada espécie estão listadas, incluindo as cobertas pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies (CITES).  (16)

As condições de transporte dos animais devem garantir que o seu bem-estar não seja comprometido de modo que cheguem ao destino saudáveis. Para isso, é necessário atender à saúde e bem-estar antes do envio, a fim de garantir que não haja qualquer infeção subclínica que possa causar doença clínica durante ou logo após o transporte. No destino, os animais devem ser examinados novamente. Ocasionalmente, durante o transporte os animais exóticos escapam como resultado da falta de cuidado ou contenção inadequada. (16)

  •  Planeamento de uma estratégia de bem-estar:

Ao planear uma estratégia de bem-estar de uma espécie exótica, é importante considerar todos os seus requisitos e necessidades biológicas. Conhecer a história natural de um animal é um recurso importante para compreender os seus requisitos e os critérios ambientais. (16)

Existe uma grande variedade de espécies exóticas que podem ser mantidas em cativeiro e, portanto, uma grande variedade biológica entre elas. Assim sendo, não é possível definir uma estratégia de bem-estar transversal entre espécies. Deste modo, devemos apostar numa abordagem individual tendo em conta as características biológicas de cada espécie. (16)

  • Considerações em termos de evolução:

Tipicamente, as espécies mais próximas filogeneticamente, têm mais semelhanças biológicas. Posto isto, na ausência de orientações específicas para cada espécie, devemo-nos guiar pela literatura existente para as espécies filogeneticamente próximas. Este processo é útil numa fase inicial de determinação das necessidades da nova espécie a ser domesticada, como por exemplo  em termos de comportamento, ecologia, reprodução, e ainda aplicações clínicas e de bem-estar geral. (16) Existe também um algoritmo que utiliza o mesmo princípio e permite uma melhor tomada de decisões para a escolha de fármacos para tratamento. (12)

  • Fisiologia:

O correto funcionamento da fisiologia de um animal é essencial para a sua sobrevivência. Um dos aspetos fisiológicos fundamentais é compreender como o animal regula a sua temperatura corporal (endotérmico ou ectotérmico) (15). Esta característica influencia na decisão do  tipo de fonte de aquecimento, percentagem de humidade e horas de luz que o animal vai necessitar, assim como a quantidade. Quando existe a necessidade de providenciar uma fonte de luz artificial é importante ter em conta o tipo de lâmpada, nomeadamente o comprimento de onda da luz que emite. (16)

O aprovisionamento de água é essencial para a maioria das espécies, ainda que existam algumas em que o aporte de água na alimentação é suficiente. Este é um fator crítico e que compreende um grande conjunto de parâmetros a controlar, principalmente nas espécies aquáticas ou anfíbias. (16)

A dieta é um dos primeiros fatores a gerar preocupação quando se lida com espécies novas. Existe uma diferença entre fornecer uma nutrição e uma dieta adequadas, sendo a segunda, mais difícil de alcançar. Como regra geral, temos de conseguir perceber com que frequência, em que quantidade e que tipo de alimentos os animais utilizam em estado selvagem, pois o modo como se alimentam, em tudo tem a ver com as suas adaptações anatómicas e fisiológicas. É também muito importante para que seja mantida a higiene do habitat artificial, e a redução de desperdício alimentício. (16)

Os animais interagem com o ambiente onde são inseridos, sendo, por isso, é importante investir no enriquecimento ambiental, fornecendo materiais naturais e limitando cheiros, ruídos e visões que não sejam habituais para o animal (por exemplo, permitir que um animal predador consiga ver um animal que lhe seria uma presa natural, sem que este o consiga alcançar, pode  tornar-se frustrante). (19)   

  • Sociabilidade:

Neste aspeto, o mais importante é fazer a distinção entre animais gregários e animais solitários. (1) Quando abordamos uma espécie gregária, a sua detenção em cativeiro será um desafio maior, pois é necessário ter a área suficiente para acomodar vários animais em simultâneo, permitindo que ao mesmo tempo, cada um tenha o seu espaço pessoal, para quando se quiser resguardar de determinadas interações sociais indesejadas. (16) 

Alerta-se ainda que casos de sobrepopulação, poderão causar problemas de stress e agressividade que podem culminar  em atos de canibalismo. (6)

Em espécies mantidas como animais de estimação, muitas vezes o ser humano é encarado pelo animal como seu conspecífico. Porém, animais de laboratório ou outros animais que estejam a ser sujeitos a estudos científicos, não têm muito contacto com o ser humano, sendo importante que a aproximação deste a um animal, para qualquer intervenção necessária, não seja uma experiência que lhe cause stress nem se torne perigoso. Para evitar este tipo de situações é necessária uma habituação prévia dos animais aos seus tratadores, sendo o treino com reforço positivo uma ótima ferramenta de trabalho. (3)

  • Comportamento:

Este fator, aliado aos anteriores, influencia o modo como vamos preparar o habitat artificial do animal, para que este possa, por exemplo, deslocar-se, descansar, fazer ninho, alimentar-se, esconder-se e brincar, de uma maneira natural para a espécie. Atualmente, o enriquecimento ambiental deve ser uma prioridade imprescindível nos habitats artificiais, evitando, desta forma, o seu uso apenas em casos de tratamento comportamental. (13) Um animal mantido em cativeiro, que se encontre em condições de bem-estar, irá demonstrar um comportamento natural para a sua espécie, faixa etária e género.

  • Avaliação do bem-estar:

Após ter sido averiguada a biologia básica, os requerimentos e delineada a estratégia de bem-estar para determinada espécie, como é que confirmamos a sua eficácia? 

A primeira preocupação será avaliar a saúde geral do animal, recorrendo a Médicos Veterinários especialistas. Avaliar a saúde psicológica de um animal é ainda um desafio, várias vezes a avaliação é muito subjetiva e antropomórfica (o animal estará triste ou feliz). 

Ainda não existe um método prático e objetivo de avaliar o bem-estar animal em cativeiro, por isso, frequentemente só é possível concluir que o animal não está nas condições ideais quando o mesmo exibe sinais que o demonstram. (16)

Contudo, não devemos descurar os métodos subjetivos para avaliar o bem-estar animal, pois a nossa capacidade de criar empatia é um barómetro importante para que seja desencadeada uma posterior avaliação mais objetiva. (16)  

  • Conclusão:

Muitos animais exóticos não são apropriados para serem mantidos em cativeiro. Outros conseguem adaptar-se a viver em cativeiro, mas sob condições específicas. E existem ainda animais que se tornaram excelentes espécies domésticas. Para qualquer situação de cativeiro, é sempre necessário um planeamento prévio para fornecer as melhores condições possíveis, sendo necessária uma pesquisa exaustiva, em fontes fidedignas, para obter informações sobre as caraterísticas fisiológicas, clínicas e etológicas para a espécie em questão, ou o seu parente mais próximo. (16)

 Referências Bibliográficas:

(1) Bearder SK. Lorises, bushbabies and tarsiers: Diverse societies in solitary foragers. In: Smuts B, Cheney D, Seyfarth R et al., eds. Primate Societies. Chicago, USA: University of Chicago Press, 1987.

(2) Beringer J, Hansen LP, Wilding W et al. Factors affecting capture myopathy in white-tailed deer. J Wildl Manage 1996;60(2):373–380.

(3) Bloomsmith MA, Else JG. Behavioral management of chimpanzees in biomedical research facilities: The state of the science. ILAR J 2005; 46(2):192–201.

(4) Carlstead K. Effects of captivity on the behavior of wild mammals. In: Kleiman DG, Allen ME, Thompson KV et al., eds. Wild Mammals in Captivity: Principles and Techniques. Chicago, USA: University of Chicago Press, 1996;xvi639 p.

(5) Dawkins MS. The science of animal suffering. Ethology 2008; 114(10):937–945.

(6) De Waal FBM, Aureli F, Judge PG. Coping with crowding. Sci Am 2000;282(5):76–81.

(7) Diamond J. Evolution, consequences and future of plant and animal domestication. Nature 2002;418:700–707.

(8) Fowler ME. Restraint and Handling of Wild and Domestic Animals. Ames, Iowa: Iowa State University Press, 1995.

(9) Kleiman DG, Allen ME, Thompson KV et al., eds. Wild Mammals in Captivity: Principles and Techniques. Chicago: University of Chicago Press, 1996;639xvi.

(10) Honess PE, Marin CM. Behavioural and physiological aspects of stress and aggression in nonhuman primates. Neurosci Biobehav Rev 2006;30(3):390–412.

(11) Hosey G, Melfi V, Pankhurst S. Zoo Animals: Behaviour, Management, and Welfare. Oxford: Oxford University Press, 2009;661xxii.

(12) Mayer J, Martin J. Barriers to exotic animal medicine. Vet Clin North Am Exot Anim Pract 2005;8(3):487–496.

(13) Mellen J, MacPhee MS. Philosophy of environmental enrichment: Past, present, and future. Zoo Biol 2001;20(3):211–226.

(14) Price EO. Behavioural aspects of animal domestication. Q Rev Biol 1984;59(1):1–32.

(15) Schmidt-Neilsen K. Animal Physiology: Adaptation and Environment. 3rd ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1983;619, xii.

(16) Valarie, V. T. (2013). Welfare of exotic animals in captivity in Paul E. Honess and Sarah E. Wolfensohn, Behavior of exotic pets (pp. 215-222). Chichester: Wiley-Blackwell.

(17) Windingstad RM, Hurley SS, Sileo L. Capture myopathy in a free-flying greater sandhill crane (Grus canadensis tabida) from Wisconsin. J Wildl Dis 1983;19(3):289–290.

(18) Wolfensohn SE, Honess PE. Laboratory animal, pet animal, farm animal, wild animal: Which gets the best deal? Anim Welf 2007; 16(S):117–123.

(19) Young RJ. Environmental enrichment for captive animals. In: Kirkwood J, Hubrecht R, Roberts E, eds. UFAW animal welfare series, ed. Oxford, UK: Blackwell Science Ltd, 2003;228, xii.

(20) Young RJ. The importance of food presentation for animal welfare and conservation. Proc Nutr Soc 1997;56(3):1095–1104.

Decreto Lei no 265/2007 de 24 de julho do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas. Diário da República: I Série, No 141 (2007). Acedido a 25 de abril de 2020. Disponível em www.dre.pt.