A eutanásia é comumente realizada na prática clínica em Medicina Veterinária quando já não existe qualquer possibilidade ou alternativa capaz de conferir bem-estar e qualidade de vida a um animal. Esta prática é, muitas vezes, a única forma restante passível de acabar com sofrimento de um animal de estimação. A eutanásia é um dos pontos mais sensíveis da medicina veterinária e revela-se como um verdadeiro desafio para todas as pessoas que envolve, sejam médicos veterinários, enfermeiros, auxiliares e principalmente os tutores do próprio animal. Nem sempre é fácil ultrapassar uma eutanásia, seja por parte do clínico que a executa ou por quem vê e/ou deixa o seu animal partir.

O presente artigo procura responder a algumas questões pertinentes, frequentemente procuradas por tutores de animais de estimação, associadas ao processo de eutanásia. Como conclusão, deixamos alguns casos pessoais de profissionais de Medicina Veterinária, estagiários e tutores, que pretendem auxiliar quem esteja com dificuldade em enfrentar a perda do seu animal de estimação e realizar o seu luto.

“O que devo fazer?”

A decisão deve ser tomada considerando não só aquilo que será melhor para o animal, mas também o melhor para o tutor e a sua família. Em situações em que a qualidade de vida do animal de estimação está seriamente prejudicada por uma lesão ou doença que não pode ser tratada ou requer mais cuidados do que aquele que a família ou o tutor são capazes de fornecer, a eutanásia pode ser a decisão certa. A qualidade de vida é importante tanto para o animal como para a família.(1)

Nos casos em que a eutanásia é realizada, o tutor pode decidir o que deseja fazer com os restos mortais do seu animal de estimação. O Médico Veterinário pode informar o tutor sobre as alternativas de que dispõe. Esta escolha pode trazer algum conforto para o tutor e restantes familiares uma vez que, sabendo o que acontecerá a seguir, não irão precisar de se concentrar nessas decisões no processo de luto.(1)

“Como vou saber quando é o momento?”

Quando um animal de estimação deixar de ser capaz de disfrutar das atividades comuns do dia-a-dia, deixar de responder como o habitual e sentir mais dor do que prazer, a eutanásia deve ser considerada. O mesmo se aplica em animais em estado terminal ou gravemente feridos.(1)

A melhor forma de tomar esta decisão é através da avaliação da condição do animal por um Médico Veterinário. Este, será capaz de apresentar ao tutor as opções disponíveis para o caso em concreto, a possibilidade ou não de recuperação, possíveis sequelas, necessidades especiais, opções médicas e cirúrgicas e os riscos e resultados que podem estar associados às mesmas.(1)

Todas as dúvidas que surjam e que possam influenciar a decisão que o tutor irá tomar devem ser esclarecidas. É crucial que este compreenda a condição do animal. O tutor deverá sempre recordar-se que o animal não possui poder de decisão e que lhe cabe a si fazê-lo.(1)

Embora haja momentos em que a decisão precisa de ser tomada imediatamente, o tutor terá sempre algum tempo para avaliar a situação discuti-la com a sua família e amigos antes de tomar a decisão(1).

“O meu animal vai sentir dor durante o procedimento?”

Compreender como é realizado o procedimento pode ajudar o tutor não só a tomar a decisão, como também a decidir se deseja ou não estar presente durante a eutanásia.(2)  

Inicialmente, o Médico Veterinário e/ou auxiliares deixam o animal de estimação o mais confortável possível. Este procedimento poderá ser realizado em casa do animal ou num hospital ou clínica (neste caso, numa sala silenciosa). Às vezes, é administrado em primeiro lugar um sedativo ou tranquilizante suave, no caso do animal parecer ansioso ou para aliviar a dor.(2)  

Coloca-se, frequentemente, um cateter venoso periférico no animal para garantir que o fármaco (utilizado geralmente um barbitúrico, semelhante aos utilizados para anestesia geral) atua rapidamente. Em doses muito mais altas, este fármaco fornece não apenas os mesmos efeitos que a anestesia geral (perda de consciência, perda da sensação de dor), mas também suprime os sistemas cardiovascular e respiratório. Após a injeção da solução, o animal perde a consciência (entra num sono profundo) e, em poucos minutos, o coração e os pulmões param de funcionar. Devido aos efeitos dos barbitúricos o animal não sente nada durante o procedimento. Na maioria das vezes, a morte do animal é tão suavemente que se torna, por vezes, difícil confirmá-lo até que o médico veterinário confirme a ausência de batimentos cardíacos.(2) 

Os olhos permanecem abertos após a administração do barbitúrico na maioria dos casos. Às vezes, as últimas respirações são denominadas agonais, uma vez que representam contrações musculares involuntárias. Após a morte do animal, há um relaxamento muscular completo, geralmente acompanhado por micção e defecação, normais do processo e é algo que um tutor deve esperar. Para além disso, após a morte, os produtos químicos normalmente armazenados nas terminações nervosas são libertados, causando espasmos musculares ocasionais no período post-mortem inicial.(2)

“Devo estar presente no procedimento?”

A decisão de ficar ou não ficar com um animal de estimação durante a eutanásia é muito pessoal. Alguns tutores optam por estar presentes para confortar o seu animal de estimação. Por outro lado, outros preferem despedir-se previamente, uma vez que sentem que a sua perturbação emocional apenas iria dificultar o processo e deixar o animal mais ansioso e instável. Ainda assim, aqueles que optam por não ficar podem querer ver o corpo do animal após a conclusão do procedimento.(1,2)

Referências Bibliográficas:

  • Euthanasia. (n.d.). Retrieved February 15, 2020, from https://www.avma.org/resources/pet-owners/petcare/euthanasia
  • Facts About Euthanasia (Small Animals). (2019, May 22). Retrieved February 17, 2020, from https://www.vet.cornell.edu/about-us/outreach/pet-loss-support-hotline/resources-grieving/facts-about-euthanasia/facts-about-euthanasia-small-animals

Testemunhos – “Eutanásia: Ajuda-nos a ajudar!”:

  • Tutores:

“Perdi a minha gatinha recentemente devido a um estado avançado de insuficiência renal crônica, anemia e artroses bastante avançadas. Tomava toda a medicação devida (embora que a muito custo) e proporcionamos-lhe sempre o melhor que conseguimos (alimentação, fluido subcutâneo, muito amor e atenção). Quando começou a vomitar todos os dias, sabíamos que já nada havia a fazer. No próprio dia da consulta ao Veterinário, que nos confirmou as nossas suspeitas, tomei a decisão mais difícil de toda a minha vida… Ainda assim, no meio de tanta dor de tudo o que ia perder, ainda que ela tivesse estado bastante bem disposta nesse mesmo dia… Ainda que ela mostrasse alguma força em querer lutar contra tudo isto… Foi a melhor decisão que podia ter tomado e fico imensamente grata por ter tido esta opção disponível: em finalmente poder sussurrar ao ouvido da minha menina que ela não precisava de procurar mais forças onde não as encontrava. Fico agradecida por poder ter atuado ainda antes da situação piorar até a um ponto pelo qual não queria que a minha melhor amiga passasse. A casa fica vazia, como se toda a mobília tivesse desaparecido subitamente e o calor fugido pelas janelas, as noites solitárias, mas a dor vai-se despercebidamente transformando em amor e tudo com que nos deixa são memórias felizes de tempos bem passados na companhia de velhos amigos, que mesmo passado tanto tempo após terem partido, ainda nos conseguem fazer sorrir.”

“Foi há cerca de 2 meses que disse adeus ao meu menino. Foram 10 anos de puro amor. No último ano descobrimos-lhe um tumor para o qual não poderia ser operado por causa do risco na cx. Então teve um tratamento paliativo que lhe garantisse o mínimo de dor possível. Eu sou estudante deslocada então só estava com ele aos fins de semana e nem sempre tinha tempo para lhe dar os melhores cuidados e o resto da familia também é bastante ocupada durante o dia, então ele acabava por ter pouco acompanhamento. Mesmo a custar-lhe andar estava sempre com aquela alegria e energia dele, sempre pronto para me seguir para onde fosse. Mas nos últimos tempos já nao se conseguia levantar e o olhar que ele me dava por não me conseguir seguir partia-me o coração. Sabia que ele estava infeliz. Numa noite em que ele estava muito mal e sempre a vomitar fomos de urgência para o vet. O veterinário sugeriu a eutanásia porque já estava num estado mesmo avançado. Eu sou estudante de veterinária também, então estava sempre a pensar noutras soluções, “ainda pode ficar cá uns dias a soro e durar mais tempo”, “tomar analgésicos para melhorar a dor e ficar mais tempo comigo”. Mas percebi que talvez estivesse a ser egoísta. Era mais tempo a ser nem metade do que ele era, e sem o acompanhamento que precisava porque infelizmente nenhum de nós tinha tempo suficiente para cuidar dele. Foi a decisão mais difícil da minha vida. O fiel esteve comigo desde os 11 anos, vi-o nascer e crescer cheio de força e lealdade, esteve sempre la nos momentos difíceis. E continuava ali a confiar em mim como confiou a vida inteira. Então “mata-lo” não parecia certo. Mas depois lembrei me que amor também é deixar ir e que já estava na hora dele. Ficar cá só o faria sofrer mais e ele precisava descansar. Então dei-lhe o meu ultimo ato de amor e consenti. Doeu assinar o aquele papel, doeu quando ele me viu chorar e me lambeu a cara preocupado, doeu quando ele me quis seguir quando fui chamar o vet. Doeu quando não senti outra respiração a vir. Ele foi o meu fiel até ao fim. Corajoso, leal e protetor. Ainda me sinto culpada as vezes. Não sei se este testemunho vai contribuir para ajudar alguém visto que eu ainda não superei. Mas ajuda quando vejo fotos dele e me lembro de todos os bons momentos. Quando me lembro que ele teve uma vida boa e foi feliz. Quando me lembro que foi o meu melhor amigo e teve a melhor vida de cão que lhe pude dar. E sobre a eutanásia… acho que se a virmos como um ato de amor, dos mais difíceis do mundo, mas ainda assim dos mais altruístas, talvez ajude a ver que foi a decisão certa.”

“Enquanto tutora: Nunca tinha tido um cão, então há sempre aquele sentimento de novidade, de não saber como agir principalmente em situações difíceis como quando as coisas não correm bem. Sempre foi uma cadela saudável até que simplesmente deixou de andar dos posteriores. Corremos para o veterinário a toda a velocidade. Exames nos melhores sítios, nos mais conceituados e o resultado era apenas um: uma hérnia num sitio muito complicado e que, nenhuma cirurgia, a ia permitir ter qualidade de vida. Já não pedia para que andasse, há imensos animais que não o fazem mas são felizes mas ela não ia ser. Então demos-lhe o maior conforto possível durante esta semana em que procuramos o melhor. Felizmente o fator económico nunca se pôs, provavelmente isso iria tornar a situação mais difícil. A minha mãe quis enterra-la em casa, colocar uma vedação e umas flores. E não teríamos coragem de a levar à clínica e trazê-la sem vida. Então o veterinário veio a casa e deu-lhe a ”injeção do descanso” e custou muito, nunca pensei que fosse assim. Mas tenho aquele conforto de que fizemos tudo e enquanto foi viva foi a cadela mais mimada, feliz e amada. A verdadeira princesa da casa. Passaram-se semanas de um vazio, de falta da bolinha de pelo a encher-me de baba assim que chegava a casa, de me fazer companhia a estudar, a dormir ou a brincar mas o tempo ajuda nestas coisas, não resolve mas atenua. Portanto, a mensagem que deixo é mesmo de, garantir o bem estar deles é o mais importante, não o nosso egoísmo por os querermos ter ao pé de nós a qualquer custo. E nunca digam ”não quero ter mais nenhum!” a casa sente falta do pelo pelo ar.”

  • Estagiária/Estudante de Medicina Veterinária:

“Também sou estudante de MEDVET, e quando estava no 2º ano realizei um estágio num hospital de animais de companhia. Quando assisti pela primeira vez a uma eutanasia, ja tinha contactado com animais que estavam internados, faleceram durante a noite, e no dia seguinte tinha tido oportunidade de ajudar a realizar uma necrópsia básica nos mesmos. Adoro anatomia e fiquei muito contente por ter estas oportunidades. Foi algo que não me afetou muito pois a tutora não quis assistir e o animal foi eutanasiado no internamento de maneira muito silenciosa e discreta. Quando assisti a primeira eutanásia com o acompanhamento de tutores, foi um pouco diferente.

Era um pastor alemão com mais de 10 anos, não se conseguia mover autonomamente, estava incontinente e com dificuldades respiratórias. Chegou transportado num lençol segurado por dois tutores masculinos. Já sabemos que os homens tentam demonstrar-se sempre mais fortes…enfim, realizamos radiografias, e observamos o que provavelmente seriam metástases pulmonares. Dado todo o quadro clínico do animal, foi tomada a decisão mais humanitária. Assisti a todo o processo, a médica veterinária era muito sensível e não deixou de dar uma palavrinha de força aqueles senhores que choravam intensamente enquanto o seu animal partia. Não queria sair antes do final, e aguentei com muita força as lágrimas. Depois tive que ir à casa de banho para aí descarregar as emoções. Quando voltei ao internamento, estava lá o cão, sem vida, numa das bancadas. Prontamente as enfermeiras perguntaram-me se queria abrir o animal. Disse logo que sim, apesar de terem passado apenas cerca de 10min desde a sua morte. O animal ainda estava quente, e confesso que me causou algum constrangimento, mas quando abrimos, vimos o que seria um hemangiossarcoma enorme no baço. Fiquei logo maravilhada porque adoro anatomia, e no final ainda pude fazer as minhas primeiras suturas. No meu ponto de vista, e apesar de sermos a mesma pessoa, temos que vestir diferentes peles, e adotar diferentes pontos de vista consoante a situação. Assisti a eutanásia e senti na pele a dor daqueles tutores, como ser humano que sou, no entanto, como estudante de veterinária, também encarei a morte daquele animal como mais uma boa oportunidade de aprendizagem. Tenho algum medo no futuro quando estiver a exercer, não conseguir controlar as emoções perante os tutores, mas também sei que ao longo do tempo ficará mais fácil, e que lidarei melhor com a situação. Um medo maior será se algum dia tiver que eutanasiar os meus próprios animais, mas sei que aí apesar de toda a dor e sofrimento que passarei, que estarei a fazer o melhor por eles. Penso ainda que é muito benéfico conversar sobre este assunto, ainda para mais entre a comunidade de estudantes de MEDVET, pois como referi, vemos as coisas de diferentes perspetivas ao mesmo tempo, e é normal precisarmos de ajuda para ultrapassar as adversidades. Não façamos deste um assunto tabu!”

  • Médica Veterinária:

“A palavra eutanásia provém da palavra grega “eu” que significa boa e “thanatos” que significa morte. Portanto, na sua tradução literal, a eutanásia é uma morte boa, digna e sem sofrimento.

O pior sentimento para quem ama os animais, quer seja um médico veterinário, um enfermeiro veterinário, um auxiliar veterinário ou um tutor de um animal, é presenciar o sofrimento e a dor do seu amigo de quatro patas, sem nada poder fazer para o ajudar. Muitas pessoas desconhecem, mas a verdade é que os animais sabem quando chegou a sua hora e deixam de lutar.

A eutanásia é um ato de bondade e de altruísmo puro. Ajudar o nosso amigo a partir com dignidade, sem sofrimento e rodeado de amor e carinho, é a melhor forma de mostrarmos a estes seres maravilhosos a nossa eterna gratidão pelo amor incondicional, pela partilha dos bons e dos maus momentos das nossas vidas.

Como Médica Veterinária recordo-me de todas as eutanásias que realizei, de todos os animais, de todos os tutores… A eutanásia é um momento de dor profunda, de muitas lágrimas e de muita angústia para todos. Mas confesso que em todas as eutanásias que assisti, consegui sentir nos olhos dos nossos amigos a sua gratidão, o “não te preocupes, que eu vou ficar bem”, porque sabem que os amamos e que os estamos a ajudar a partir. A eutanásia não é “matar”, é acompanhar os nossos amigos na hora da partida e esperar que um dia eles voltem para nós ou nós para eles.

O amor incondicional pelos animais é isto, é deixá-los partir quando a sua hora chegou, quando eles desistem de viver. A maldade maior que existe é deixar que o nosso egoísmo, ignorância e o nosso ego nos impeça de perceber que chegou o momento e a hora deles. É importante perceber que o importante não é o tempo que eles vivem, mas sim a qualidade de vida que eles têm nesse tempo. Reconforta-me pensar que todos os animais que “ajudei”, alguns deles como tutora, estão à minha espera do outro lado para me receber e agradecer por ter estado presente na sua caminhada final.

Um bem-haja a todos os profissionais veterinários que diariamente lidam com a eutanásia, e aos tutores, pelo seu altruísmo e pela sua bondade pura, que os tornam capazes de colocar sempre em primeiro lugar o bem-estar e a dignidade dos nossos amigos de quatro patas.

Até um dia,

Maria, Zé Manel, Noddy, Brown Nico, Camões, Vitória, Júnior, Alex, China, Pantufa, Mafalda, Dumbo, Velhinha, Bolinha, Doroteio, Faísca, Smile, Bela (…)”