O que é a listeriose?

A listeriose é uma doença de distribuição mundial que afeta humanos e animais. Esta infeção é causada por duas espécies de bactérias patogénicas do gênero Listeria: L. monocytogenes e L. ivanovii. A infeção nos seres humanos ocorre através da ingestão de alimentos contaminados com a bactéria.(6)

Apesar de pouco frequente, a infeção pode ser grave, especialmente em imunodeprimidos e recém-nascidos.(2)

Esta doença é de notificação obrigatória em Portugal, desde 2014.(2)

Características do agente patogénico:

O género Listeria inclui atualmente 17 espécies reconhecidas (Listeria monocytogenes , Listeria seeligeri , Listeria ivanovii , Listeria welshimeri , Listeria marthii , Listeria innocua , Listeria grayi , Listeria fleischmannii , Listeria floridensis , Listeria aquatica , Listeria newyorkensis , Listeria cornellensis , Listeria rocourtiae , Listeria weihenstephanensis , Listeria grandensis , Listeria riparia e Listeria booriae) de pequenas bactérias gram-positivas em forma de bastonete. A maioria das espécies do género Listeria está amplamente distribuída pelo mundo e é, portanto, comumente encontrada em diferentes ambientes.(3)

Apenas duas dessas espécies, L. monocytogenes e L. ivanovii , são consideradas patogénicas. A espécie L. monocytogenes foi isolada em todo o mundo em humanos e animais e apresenta um impacto económico considerável para a sociedade e para a indústria alimentar.(3)

Para além disto, já foram assinalados casos de listeriose animal causados por L. ivanovii na Europa, bem como em outros continentes. No entanto, esta espécie está raramente associada à doença em humanos, sendo mais comum em infeções em animais.(6)

Esta bactéria é ubiquitária no ambiente, existindo principalmente no solo e na água. Os reservatórios animais incluem mamíferos domésticos e selvagens, galináceos e ainda seres humanos, sendo frequente a ocorrência de portadores assintomáticos por períodos prolongados.(2)

L. monocytogenes apresenta crescimento ótimo no intervalo de temperaturas entre 30ºC e 35ºC, mas suporta temperaturas de refrigeração (entre 4ºC a 10ºC), contrariamente a outros agentes patogénicos de zoonoses e doenças transmitidas por água e alimentos.(2)

 

Vias de transmissão do agente(2):

A transmissão da bactéria pode ocorrer nas seguintes situações:

  • Contacto direto com animais (funcionam como reservatório da bactéria);
  • Consumo de alimentos e produtos alimentares contaminados, de origem animal e vegetal, processados ou não;
  • Da mãe para feto (transmissão vertical) ou durante a passagem pelo canal de parto infetado.

Os alimentos e produtos alimentares contaminados, mais frequentemente associados à ocorrência de infeção, incluem:

  • Carne de vaca, porco ou aves, crua;
  • Crustáceos, mariscos ou moluscos;
  • Leite e derivados não pasteurizados;
  • Frutas e vegetais crus ou mal lavados.

Pode ainda ocorrer contaminação cruzada em alimentos processados, nomeadamente charcutaria e congelados.

 

Sintomas de infeção por Listeria spp em humanos:

A maioria dos adultos saudáveis não desenvolve doença após infeção.(2)

A listeriose pode ser acompanhada por diferentes sintomatologias.(4) À semelhança de outras doenças transmitidas por alimentos, habitualmente manifesta-se por uma gastroenterite com febre, náuseas e diarreia.(2)

Sintomas como dor de cabeça, rigidez no pescoço, confusão, perda de equilíbrio e convulsões, além de febre e dores musculares, são também frequentemente identificados.(4)

As mulheres grávidas geralmente apresentam apenas febre e outros sintomas semelhantes aos da gripe, como fadiga e dores musculares. No entanto, infeções durante a gravidez podem ser assintomáticas ou levar a aborto espontâneo, parto prematuro ou infeção do recém-nascido – o que coloca em risco a vida do mesmo. 

No recém-nascido estão descritas duas formas de doença:

  • A de início precoce, que se manifesta por prematuridade, sépsis ou pneumonia. Nos casos mais graves pode surgir exantema papular, caracterizado histologicamente por granulomas (granulomatose infantisética);
  • A de início tardio, após a primeira semana de vida, manifestando-se habitualmente por meningite.(2)

A doença tem um período de incubação médio de 3 semanas, podendo variar entre 3 e 70 dias.(2)

Em doentes imunodeprimidos e em idosos ocorrem, por vezes, infeções graves como sépsis, meningite ou encefalite, podendo atingir uma taxa de letalidade de 30%.(2)

 

Diagnóstico de listeriose:

O diagnóstico histopatológico de listeriose pode ser feito de 3 formas:

  • Método visceral: utilizam-se amostras de lesões no fígado, baço e rins;
  • Método neurológico: recolhem-se amostras de fluído espinhal, tronco cerebral e tecidos em várias zonas da medula oblongata;
  • Material abortado: utilizam-se amostras de placenta incluindo cotilédones, conteúdo abomasal fetal e descargas uterinas.(5)

➤Exames complementares utilizados no diagnóstico de listeriose:

 

Microscopia direta: observação de esfregaços de lesões podem revelar cocobacilos gram-positivos (Listeria spp).(5)

Bacteriologia: utiliza-se normalmente ágar sangue, e ágar MacConkey para averiguar a presença de contaminantes gram-negativos. Macroscopicamente as colónias em cultura são pequenas, transparentes, com bordos lisos que podem ficar branco-acinzentadas passadas 48 horas. Listeria ivanovii apresenta uma zona ampla de hemólise, similar à hemólise ß (beta) de Streptococcus spp. Microscopicamente são então observadas as formas cocobacilares gram-positivas características da bactéria.(5)

 

Teste bioquímicos: Listeria spp. hidrolisam esculina e adquirem forma de guarda-chuva no teste de motilidade em ágar semi-sólido. Testes modificados de cAMP, utilizando Staphylococcus aureus e Rhodococcus equi, diferenciam Listeria monocytogenes de L. ivanovii.(5)

Tabela 1 – Testes para diferenciação de Listeria spp. 

Adaptado de Quinn, P. J., Carter, M. E., Markey, B., & Carter, G. R. (2004). Clinical Veterinary Microbiology.(5)

Inoculação animal.(5)

 

Serotipificação: este teste é apenas feito em laboratórios de referência e baseia-se na identificação de antigénios flagelares e somáticos.(5)

 

A listeriose tem cura? 

O tratamento da listeriose consiste em antibioterapia (penicilina ou ampicilina, entre muitas outras opções) e tratamento sintomático de acordo com os sinais clínicos manifestados pelo indivíduo afetado.(2)

Em grávidas, o tratamento atempado pode prevenir a infeção no feto ou no recém-nascido.(2)

 

Medidas de prevenção e controlo:

Para prevenir a ocorrência de infeção é importante seguir boas práticas na produção dos alimentos suscetíveis, boas práticas de higiene e controlo eficaz da temperatura em toda a cadeia de produção, distribuição e armazenamento dos alimentos, inclusive em casa. Os consumidores são aconselhados a manter a temperatura dos frigoríficos e outros refrigeradores baixa, a fim de limitar o crescimento potencial de bactérias como Listeria spp., caso esteja presente nos alimentos prontos para consumo. A Organização Mundial de Saúde aconselha a refrigeração dos alimentos a temperaturas abaixo de 5ºC.(1)

Para além disto, existem outras medidas de prevenção de extrema importância, tais como:

  • Evitar a ingestão de alimentos crus de origem animal;
  • Lavar bem a fruta e vegetais crus;
  • Cozinhar bem os alimentos;
  • Consumir os alimentos o mais brevemente possível após a sua confeção;
  • Evitar o contacto entre alimentos crus e cozinhados;
  • Manter as superfícies, equipamentos e utensílios que contactem com os alimentos devidamente higienizados.(2)

 

Caso recente de listeriose:

As autoridades de saúde pública da Comunidade Autónoma da Andaluzia, em Espanha, notificaram a existência de um surto de listeriose, a 15 de agosto de 2019. Este surto atingiu mais de 200 pessoas e provocou a morte de pelo menos três delas.(7)

O surto teve origem num lote de carne picada da marca “La Mechá”, fabricada pela empresa Magrudis, com sede em Sevilha. A produção e distribuição desta carne já foi cancelada.(7)

Um aumento no número de casos levou as autoridades sanitárias a emitir um alerta internacional e a ativar os sistemas de comunicação da União Europeia e da Organização Mundial de Saúde.(7)

O alerta foi emitido pelo Sistema de Alerta Rápido para a Segurança dos Alimentos na União Europeia (RASFF), e indica que o produto contaminado com Listeria monocytogenes foi distribuído e comercializado exclusivamente em território Espanhol.(7)

 

 

Referências Bibliográficas:

  1. Listeria. (n.d.). Retrieved from https://www.efsa.europa.eu/en/topics/topic/listeria.
  2. Listeriose. (n.d.). Retrieved from https://www.dgs.pt/saude-publica1/listeriose.aspx.
  3. Orsi, R. H., & Wiedmann, M. (2016, April 29). Characteristics and distribution of Listeria spp., including Listeria species newly described since 2009. Retrieved from https://link.springer.com/article/10.1007/s00253-016-7552-2.
  4. Outbreak of Listeria Infections | Multistate Outbreak of Listeria Monocytogenes Infections | August 2019 | Listeria | CDC. (n.d.). Retrieved from https://www.cdc.gov/listeria/outbreaks/monocytogenes-08-19/index.html.
  5. Quinn, P. J., Carter, M. E., Markey, B., & Carter, G. R. (2004). Clinical Veterinary Microbiology (1st ed.). Edinburgh: Mosby. 
  6. Roberts, A. J., & Wiedmann, M. (n.d.). Pathogen, host and environmental factors contributing to the pathogenesis of listeriosis. Retrieved from https://link.springer.com/article/10.1007/s00018-003-2225-6.
  7. Surto de listeriose em Espanha. (2019, June 9). Retrieved from https://www.sns24.gov.pt/alerta/surto-de-listeriose-em-espanha/.