A Raiva e o seu agente:

A raiva é uma infeção neurológica aguda zoonótica, geralmente transmitida por animais carnívoros através da mordedura de cães infetados. Mais raramente, a transmissão pode ocorrer na sequência do contacto da saliva do animal infetado com uma ferida aberta ou com membranas mucosas (boca, nariz e olhos). A raiva é provocada por um vírus do género Lyssavirus, denominado RABV(5;7).

Há várias estirpes do vírus da raiva, cada qual adaptada a determinadas espécies que funcionam como reservatório: mais frequentemente cães domésticos, mais raramente gatos e, dependendo do continente, outras espécies de mamíferos da ordem dos carnívoros (raposas, cães mapache, etc.) ou dos quirópteros (morcegos)(4).

Distribuição do vírus:

A raiva é uma doença com distribuição mundial, com exceção da Antártica. Nos continentes africano e asiático a doença atinge níveis bastante problemáticos, com dezenas de milhares de mortes todos os anos(7).

De acordo com os critérios estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) Portugal é considerado livre de raiva desde 1961. O último caso de raiva ocorreu em agosto de 1984 em que um cão infetado, com menos de 2 meses de idade, proveniente de Moçambique entrou clandestinamente em Portugal. Na sequência da morte do animal o diagnóstico foi confirmado laboratorialmente por imunofluorescência direta(7).

Características do vírus da raiva:

O vírus sobrevive pouco tempo fora do hospedeiro e é inativado por: temperaturas acima de 20º C durante 42h, ph inferior a 4 e maior do que 10, etanol, acetona, éter, formalina a 0,1%, sabão e detergentes comuns. Tudo isto torna o vírus passível de ser eliminado do meio ambiente. Ainda assim, o vírus pode sobreviver na saliva durante 24h à temperatura ambiente(7).

Após um período de incubação, que pode durar alguns dias a vários meses, uma variedade de sintomas prodrómicos pode surgir. A raiva encefalítica (80% dos casos) está associada a episódios de excitação generalizada ou hiperexcitabilidade e hidrofobia, em que os espasmos envolvem a contração dos músculos inspiratórios com a deglutição. A raiva paralítica (em 20% dos casos), por sua vez, é caracterizada por fraqueza progressiva dos neurónios motores inferiores. Complicações cardiorrespiratórias e outras, incluindo falência múltipla de órgãos, são comuns em pacientes com casos graves de raiva(5).

Nenhuma terapia eficaz está disponível para o tratamento da raiva e os indivíduos afetados geralmente não sobrevivem. Por outro lado, as medidas preventivas para a raiva são altamente eficazes(5).

Diagnóstico:

Apenas um médico veterinário pode avaliar clinicamente um animal suspeito de raiva. Pode suspeitar-se da ocorrência de raiva com base em sinais clínicos, mas são necessários testes laboratoriais para confirmar o diagnóstico, tais como: reação em cadeia da polimerase e cultura viral da saliva; biópsia da pele (pescoço) com teste de anticorpo fluorescente direto (AFD) e reação em cadeia da polimerase; citologia do líquido cefalorraquidiano (LCR); bioquímica do LCR, entre outros(1;3).

Medidas de prevenção:

A principal medida de prevenção contra a raiva é a vacinação dos animais de companhia contra esta zoonose: em Portugal, a vacinação antirrábica dos cães é obrigatória desde 1925. A raiva é uma doença de declaração obrigatória. Qualquer episódio de agressão a pessoas ou animais por parte de cães, gatos ou outros animais sensíveis à raiva deve ser reportado às autoridades(3).

Curiosidades – casos recentes de raiva:

No passado dia 27 de junho um gato doméstico, após a sua morte, foi diagnosticado com raiva na zona rural de Itaú de Minas, Brasil. A tutora notou alterações comportamentais no animal, que se tornou agressivo, apresentando ainda hipersiália e dificuldades de locomoção. A tutora do animal, por ter sido arranhada pelo gato, e o seu marido, por ter contactado com a saliva do animal, foram submetidos a cuidados médicos. Há mais de 16 anos que não se verificavam casos de felinos com raiva no Brasil(2).

Em Ceuta, Espanha, um cão infetado com raiva contactou com outros 11 cães e 3 gatos de um total de 151 animais suscetíveis num abrigo animal. Desses 151 animais, 26 cães e 3 gatos foram eutanasiados. Para além disto, 2 outros cães que morreram demonstraram sinais compatíveis com parvovirose mas o diagnóstico para a raiva apresentou resultado negativo(6).

Pode consultar outros casos de raiva (e de outras doenças) reportados pela OIE em todo o mundo semanalmente através do endereço: http://www.oie.int/wahis_2/public/wahid.php/Diseaseinformation/WI/index/newlang/en?fbclid=IwAR2a-T5WhqXCKh5NIfhVazpubZC8eOQbcwJw2snmt4W4InIXxGU_ZpfGpLw

Bibliografia:

(1)British Medical Journal, & British Medical Journal. (sem data). BMJBest Practices. Obtido de https://bestpractice.bmj.com/topics/pt-br/903

(2)Caso raro: gato doméstico morre com raiva no interior de Minas | JORNAL O TEMPO. (sem data). Obtido 20 de Julho de 2019, de https://www.otempo.com.br/cidades/caso-raro-gato-domestico-morre-com-raiva-no-interior-de-minas-1.2204241

(3)EPE – Empresa de Pesquisa Energética. (2015). Perguntas Frequentes sobre a EPE. Empresa de Pesquisa Energética, 2. Obtido de http://www.epe.gov.br/acessoainformacao/Paginas/perguntasfrequentes.aspx

(4)Frequently Asked Questions on rabies. (sem data). Obtido de http://www.oie.int/fileadmin/Home/fr/Animal_Health_in_the_World/docs/pdf/Portail_Rage/QA_Rage_EN.pdf

(5)JACKSON, A. C. (2018). Rabies: a medical perspective. Revue Scientifique et Technique de l’OIE, 37(2), 569–580. https://doi.org/10.20506/rst.37.2.2825

(6)OIE World Animal Health Information System. (sem data). Obtido 20 de Julho de 2019, de http://www.oie.int/wahis_2/public/wahid.php/Diseaseinformation/WI/index/newlang/en?fbclid=IwAR2gekRgcRHah08zTRS5-gGPJbM-KoFWCl11CoWPL1DyJJoVbgIope5xcnc

(7)Veterinária, D. G. de A. e, Animal, D. de S. de P., & Animal, D. de E. e S. (2017). Raiva – Plano de Contingência. 1–37.