Devido ao facto de cada Leptospirose apresentar uma diferente estrutura e composição, os anticorpos produzidos serão serovar-específicos, ou seja, serão apenas eficazes contra um determinado serovares podendo ser ineficazes contra serovares diferentes.

 

 

 

Uma das doenças infecciosas comumente diagnosticadas em canídeos em Portugal é a leptospirose. Esta doença é provocada pelo agente Leptospira spp, sendo que existem diversos sorogrupos, que por sua vez se dividem em serovares que diferem entre si pela sua morfologia, que pode fazer variar a sua patogenicidade (Mottola at al, 2015). Os serovares são agrupados consoante a existência de lipopolissacarídeos (LPS) na membrana celular externa sendo classificado como fator de virulência (Mottola at al, 2015). Esta divisão permite uma melhor caracterização a nível epidemiológico. Os serovares considerados como patogénicos e mais prevalentes em Portugal pertencem à espécie Leptospira Interroganse destacam-se os serovares Icterohaemorrhagiae,CanicolaGrippotyphosa Bratislava. Estas espécies são encontradas sob a forma inativada na vacina utilizada atualmente em Portugal para prevenir a leptospirose (Mottola at al, 2015). É uma zoonose com distribuição mundial, apresentando maior prevalência em climas tropicais e com elevada humidade sendo que condições sanitárias deficitárias também contribuem para a maior propagação do agente (Mottola at al, 2015).

Em Portugal a leptospirose é considerada como doença de declaração obrigatória nos humanos. As vacinas disponíveis no mercado contra a leptospirose em canídeos são inativadas e despoletam a produção de anticorpos através da presença de LPS na membrana celular destas bactérias (Mottola at al, 2015). Devido ao facto de cada LPS apresentar uma diferente estrutura e composição, os anticorpos produzidos serão serovar-específicos, ou seja, serão apenas eficazes contra um determinado serovares podendo ser ineficazes contra serovares diferentes (Mottola at al, 2015). Por este motivo, é importante que a vacina seja constituída pelos serovares mais prevalentes em determinada zona, de modo a aumentar a sua eficácia em casos de infeção (Mottola at al, 2015).

 

Epidemiologia:

Os mamíferos podem ser considerados como reservatórios da Leptospira, contribuindo assim para a sua dispersão para o meio ambiente e para a infecção de animais sãos. Na maioria dos casos, os animais considerados como reservatórios não expressam sintomatologia associada à infeção, sendo esta inaparente, podendo excretar a bactéria na sua urina por meses ou anos (Canadian Medical Association, 2008). A Leptospira é excretada através da urina destes animais pois é ao nível dos túbulos proximais renais que se multiplica. Os roedores são considerados um dos principais reservatórios de Leptospira, sendo a concentração de leptospiras na urina normalmente elevada (Canadian Medical Association, 2008). O humano é considerado como hospedeiro acidental, sendo frequente existir uma progressão rápida da sintomatologia após a infecção, levando muitas vezes a insuficiência renal aguda, que pode ser fatal (Canadian Medical Association, 2008).

Normalmente afeta canídeos, no entanto, casos de leptospirose já foram reportados em gatos. Os felídeos aparentam ser menos suscetíveis à infecção e são poucos os relatos de caso de leptospirose em gatos, no entanto são passíveis de serem infetados caso existam condições que permitam a infeção (Van de Maele at al, 2008). Os serovares que provocam doença podem variar consoante a distribuição geográfica, sendo que a vacina utilizada para prevenir esta doença pode incluir antígenos de diferentes serovares consoante os que prevalecem em determinado local (Canadian Medical Association, 2008).

Os canídeos podem ficar infectados através do contacto com outros animais que sejam portadores da doença, bem como através do contato ou ingestão de água contaminada (Canadian Medical Association, 2008). A Leptospira não tem capacidade de replicação fora do hospedeiro, mas pode permanecer viável  na urina excretada durante semanas a meses (Canadian Medical Association, 2008).

A sintomatologia pode variar consoante os serovares, modo de infeção e estado imunitário do animal infectado. Animais mais jovens frequentemente desenvolvem quadros de doença mais severos pois o seu sistema imunitário não se encontra totalmente desenvolvido (Canadian Medical Association, 2008). Além disso, diferentes serovares apresentam diferentes patogenicidades que são definidas através da existência ou não de fatores de virulência (Canadian Medical Association, 2008).

Os reservatórios de Leptospirapodem excretar intermitente ou continuamente a bactéria na urina, possibilitando que esta seja propagada a outros animais (Canadian Medical Association, 2008). Os animais considerados como reservatórios normalmente não demonstram sinais severos de patologia, sendo muitos deles assintomáticos (Canadian Medical Association, 2008).

O homem é considerado como sendo um hospedeiro acidental e na maioria das vezes é infectado após contacto com secreções de animais infectados ou através de um ambiente contaminado. Secreções como urina, sangue ou tecidos orgânicos podem constituir um meio de transmissão de Leptospira, caso haja contacto com estas mesmas secreções (Canadian Medical Association, 2008).

 

  Patofisiologia:

Leptospira consegue atravessar as mucosas nomeadamente do olho, boca e nariz bem como através de pele, em situações em que a mesma se encontre comprometida. Normalmente a dispersão pela corrente sanguínea ocorre 4 a 7 dias após infecção e rapidamente as leptospiras em circulação alcançam órgãos tais como fígado, rim e baço (Van de Maele at al, 2008).

Após a entrada no organismo ocorre um período de leptospirémia, em que as leptospiras se encontram em circulação sanguínea e é durante esta fase que as bactérias vão afetar determinados órgãos (Van de Maele at al, 2008). Durante a fase de leptospirémia, os sinais clínicos poderão ser pouco específicos e podem incluir diarreia, hipertermia, vômitos e dor abdominal (Van de Maele at al, 2008).

No entanto, é ao nível dos túbulos renais proximais que vai ocorrer a maior multiplicação de leptospiras, sendo considerada uma fase de leptospirúrica, em que as leptospiras são excretadas em elevadas quantidades pela urina do animal infectado (Van de Maeleat al, 2008). Aquando desta multiplicação, existe uma ativação dos mecanismos de defesa do organismo e a formação de complexos imunes ao nível dos túbulos renais (Van de Maele at al, 2008). Esta reação imunitária ao nível dos túbulos renais vai provocar uma diminuição da taxa de filtração glomerular que poderá posteriormente levar a insuficiência renal aguda (Van de Maele at al, 2008).

Os LPS presente na membrana celular externa da Leptospira vão estimular a adesão de neutrófilos e a ativação das plaquetas (Van de Maele at al, 2008). Além disso, poderá também provocar lesão nos vasos sanguíneos levando muitas vezes a vasculite severa que propicia ao desenvolvimento de edemas generalizados, hemorragias e em último caso a coagulação vascular disseminada (Van de Maele at al, 2008).

 

 Sintomatologia:

A sintomatologia clínica inicial associada à leptospirose normalmente é pouco específica, tais como dor abdominal, febre, anorexia e prostração (Van de Maele at al, 2008). No entanto, é a existência de sintomatologia hepática e renal que poderá fazer suspeitar e incluir esta doença nos diagnósticos diferenciais. Em casos agudos de leptospirose ocorre falência hepática de progressão aguda e, neste caso, poderá verificar-se situações de icterícia por diminuição do metabolismo da bilirrubina, equimoses/petéquias generalizadas por diminuição da produção de fatores de coagulação e edemas generalizados por diminuição da produção de proteínas plasmáticas como a albumina (Van de Maele at al, 2008). Os rins também serão afetados e, em caso de infeção aguda poderá levar a insuficiência renal aguda (Van de Maele at al, 2008).

As principais alterações que serão expectáveis de serem encontradas ao nível do hemograma são neutrofilia, por vezes com desvio à esquerda, linfopenia e uma anemia não regenerativa que poderá ir desde ligeira a moderada (Van de Maele at al, 2008). Em casos mais severos, em que existem hemorragias gastrointestinais e pulmonares bem como perda de sangue pela urina, a anemia poderá ser considerada como severa, sendo recomendado a realização de transfusão sanguínea em alguns casos (Van de Maele at al, 2008). A trombocitopenia também é comum em casos de leptospirose, principalmente quando existe evidência de insuficiência renal aguda com presença ou ausência de lesão hepática (Van de Maele at al, 2008).

Normalmente os níveis séricos de ureia e creatinina encontram-se elevados devido ao dano renal associado a estes casos. A insuficiência hepática é também uma possível complicação da leptospirose e poderá levar a aumentos significativos das enzimas hepáticas AST, ALT e ALP e a uma redução quer das proteínas plasmáticas como a albumina, mas também à diminuição da produção da vitamina K, essencial para ativação dos fatores de coagulação (Van de Maele at al, 2008). Em casos severos da doença, o animal afetado poderá apresentar-se ictérico, sendo inicialmente classificada como pré-hepática ou hemolítica, uma vez que os eritrócitos são destruídos por ação do sistema imunitário e a taxa de metabolização pelo fígado é mais baixa comparativamente com a taxa de destruição dos eritrócitos (Van de Maele at al, 2008). Em caso de afeção hepática, a icterícia poderá revelar-se mais severa uma vez que o fígado deixa de ser capaz de metabolizar a bilirrubina (Van de Maele at al, 2008).

 

  Prevenção:

Atualmente, os protocolos vacinais de canídeos em Portugal incluem a vacina contra a leptospira, sendo fundamental vacinar todos os canídeos. Esta vacina não só previne a leptospirémia mas também reduz a severidade dos sinais clínicos caso ocorra infecção (Day at al, 2016). No entanto, tal como as outras vacinas, não evita a possível infecção. Apesar do protocolo vacinal puder variar entre centros veterinários, recomenda-se a administração da vacina contra a Leptospira a partir das 8 semanas de idade, com aplicação de um reforço vacinal 4 semanas depois, perfazendo um total de duas doses administradas (Day at al, 2016). Após o reforço, a vacina contra a leptospira poderá ser administrada anualmente (Day at al, 2016).

 

  Leptospirose e saúde pública:

A leptospirose é uma doença de elevada relevância na saúde pública por ser uma zoonose. É considerada como uma doença ocupacional uma vez que afeta predominantemente indivíduos cujas funções operacionais são consideradas de risco, tais como veterinários, trabalhadores agrícolas, criadores de gado, etc (OIE, 2014). Os profissionais que se apresentem em maior risco de contrair a infeção deverão tomar especiais precauções no que toca à manipulação de animais ou ambientes potencialmente infectados (Bashahun et al,2016). Para tal, especial proteção para o corpo, mãos e olhos deverá ser utilizada uma vez que aLeptospira é capaz de atravessar através de mucosas ou soluções de continuidade na pele (Bashahun et al,2016). É importante que exista também uma boa desinfeção tanto do meio potencialmente contaminado, bem como uma quarentena dos animais infectados, de modo a prevenir a transmissão da infecção para animais saudáveis (Bashahun et al,2016). As crianças e os idosos são considerados grupos de risco uma vez que possuem um sistema imunitário debilitado comparativamente com um adulto, por isso deverão requer maior precaução caso haja possibilidade de infeção.

 

Consultar mais em:

  • Day, M. J., M. C Horzinek, R. D. Schultz, and R. A Squires. “Diretrizes Para a Vacinação de Cães e Gatos.” WSAVA, 2016.
  • Mottola, C., A. M. Alho, T. Rafael, T. Gonçalves, and R. Seixas. “Leptospirose Em Portugal: Situação Actual e Importância Das Medidas de Controlo No Contexto Da Saúde Pública.” Revista Electrónica de Veterinária, 2015.
  • OIE Terrestrial Manual. “Leptospirosis,” 2014.
  • Van de Maele, I., A. Claus, F. Haesebrouck, and S. Daminet. “Leptospirosis in Dogs: A Review with Emphasis on Clinical Aspects.” The Veterinary Record, 2008.
  • Canadian Medical Association. “Leptospirosis in the Family Dog: A Public Health Perspective.” 2008.
  • Bashahun, Michael G., Yadeta Waktole, and Abdela Nejash. “Leptospirosis in Animal and Its Public Health Implications: A Review.” World Applied Sciences Journal, 2016.