A penicilina, o primeiro antibiótico comercializado, foi descoberta em 1928 por Alexander Fleming. Desde então, houve descoberta e reconhecimento de resistências ao lado da descoberta de novos antibióticos (Centers for Disease Control and Prevention, 2018).

 

 

 

A descoberta dos antibióticos e a sua utilização em terapia anti-infeciosa foi um grande progresso da medicina do século XX. No entanto, a eficácia dos agentes antibacterianos foi rapidamente superada pela capacidade que as bactérias têm de se oporem à sua ação, isto é, a resistência bacteriana aos antibióticos (INSA, 2010).

           Resistência antimicrobiana (AMR) é então a capacidade dos microrganismos de resistir a tratamentos antimicrobianos, especialmente antibióticos tendo um impacto direto na saúde humana e animal levando a um elevado impacto econômico devido aos custos mais altos dos tratamentos e à redução da produtividade causada por doença.

           A AMR é responsável por cerca de 33.000 mortes por ano na União Europeia (UE) e mais de 700,000 mortes anuais a nível mundial. Calcula-se igualmente que custa à UE 1,5 mil milhões de euros anuais relativamente a custos dos cuidados de saúde e a perdas de produtividade (Antimicrobial Resistance, 2018).

Esta resistência ocorre quando as bactérias desenvolvem capacidade de derrotar os fármacos destinados a matá-los. Isto significa que estas não são mortas e continuam a crescer (Centers for Disease Control and Prevention, 2018). Estas podem adquirir resistência aos antibióticos, quer modificando o seu genoma por mutação, quer incorporando genes provenientes de outros microrganismos por diferentes sistemas de transferência genética. É frequente encontrarem-se estirpes resistentes a várias classes de antibacterianos (INSA,2010).

 

A transferência e aquisição de genes resistentes aos antibióticos assim como a seleção exercida pelo uso intensivo destes esclarecem a situação alarmante a nível mundial em medicina humana e veterinária pois são a causa da transformação de populações bacterianas sensíveis em populações resistentes (INSA,2010).

Fig. 1 – Propagação da resistência antibacteriana (I.pinimg.com, 2017).

 

A pressão de seleção exercida pelos antibióticos nomeadamente onde existem estes agentes antimicrobianos, quer de forma natural (pelos microrganismos produtores de antibióticos), quer pela utilização pelo Homem levam à formação de reservatórios de genes de resistência, nomeadamente:

  • Meio ambiente – compreende o solo e as águas, influenciado ou não pela presença do homem e dos animais.

  • Homem – particularmente em meio hospitalar. Reservatório potencialmente importante, constituído por bactérias comensais do homem (pele, tubo digestivo,etc.).

  • Animais – antibióticos são utilizados não só para fins terapêuticos, mas também para fins profiláticos. Nos animais as bactérias comensais também podem albergar genes de resistência com capacidade de transferência para as bactérias patogénicas. Em muitos países os antibióticos são ainda utilizados como promotores de crescimento na pecuária (INSA,2010).

 

 

Fig.2 – Relação entre os diferentes reservatórios (Anon, 2017).

 

Embora existam poucos estudos que relacionem os diferentes reservatórios, verifica-se que produtos alimentares vegetais ou animais podem constituir uma cadeia de transmissão entre estes (INSA, 2010).

Alguns exemplos de resistências são: Staphylococcus aureus resistentes à meticilina (MRSA) ou apresentando suscetibilidade diminuída à vancomicina (VISA), enterococos resistentes à vancomicina (VRE), estirpes multirresistentes de pneumococos, bactérias de Gram negativo produtoras de beta-lactamase de espectro alargado, meningococos com suscetibilidade diminuída à penicilina (INSA, 2010).

Fig. 3 – Linha temporal de resistência a antibióticos em comparação com o desenvolvimento de antibióticos (Centers for Disease Control and Prevention, 2018).

 

 

Infeções causadas por bactérias resistentes a antibióticos são difíceis e ,por vezes, impossíveis de tratar sendo que, na maioria dos casos, infeções por AMR exigem estadias hospitalares prolongadas e consultas regulares e alternativas dispendiosas e tóxicas. Ser resistente a antibióticos não significa que é o corpo que se está a tornar resistente, mas sim que as bactérias se tornaram resistentes aos antibióticos projetados para matá-las (Centers for Disease Control and Prevention, 2018).

           Ninguém pode evitar completamente infeções resistentes, no entanto,existem populações com maior risco que outras (por exemplo, animais e indivíduos com doenças crónicas) devido à possibilidade de existir comprometimento imunológico. Atualmente estamos a entrar numa era em que os antibióticos estão a perder a sua eficácia e, se isto prevalecer, perdemos a capacidade de tratar infeções bacterianas e controlar ameaças à saúde pública. Antibióticos ainda são fundamentais para muitos avanços médico-veterinários pois estes dependem da capacidade de combater infeções nomeadamente em cirurgias mais invasivas, como ortopédicas e cardíacas, em terapias oncológicas e tratamento de doenças crónicas (Centers for Disease Control and Prevention, 2018).

 

 

Consumo de antibióticos em Portugal e na Europa

Numa análise estatística feita em 2015, Portugal tinha uma incidência de mortes por infeção bacteriana bastante elevada como é possível observar na figura 2, sendo que a Itália e a Grécia tinham uma carga estimada substancialmente maior de bactérias resistentes a antibióticos do que os outros países da UE e do Espaço Económico Europeu (EEE) (Cassini, Högberg and Plachouras, et al, 2019).

 

Fig. 4 – Carga de infeções por bactérias resistentes a antibióticos em DALYs na UE e EEE em 2015 (Cassini, Högberg and Plachouras, et al, 2019).

* DALYs – Anos de Vida Ajustados por Incapacidade – corresponde à soma dos anos de vida potencial perdidos devido a mortalidade prematura e os anos de vida produtivos perdidos devido à deficiência.

Este estudo estatístico ainda permitiu fazer uma estimativa do impacto das infeções de determinadas bactérias resistentes a antibióticos com importância para a saúde pública em DALY por 100 000 habitantes onde se concluiu que a carga de infeções por bactérias resistentes a antibióticos concentrava-se na parte sul e leste da UE e EEE como podemos observar abaixo, na figura 3 (Cassini, Högberg and Plachouras, et al, 2019).

 

Fig. 5 – Modelo estimativo das infeções de determinadas bactérias resistentes a antibióticos de importância para a saúde pública em DALY por 100 000 habitantes na UE e EEE em 2015 (Cassini, Högberg and Plachouras, et al, 2019).

A resistência aos antibióticos conduz a um perigo acrescido para a Saúde Pública sendo relevante na questão de One Health. A UE foi rápida em reconhecer a importância de combater AMR, como mostra a estratégia comunitária de 2001 contra a AMR. (Ec.europa.eu, 2017)

Esta política foi reforçada o ano passado (2018) ao ser criado um plano de ação de onde se salienta a iniciativa One Health, abordando AMR tanto em humanos como animais na UE e nos Estados Membros, tendo como principais objetivos três principais pilares:

           1. Tornar a UE uma região de boas práticas;

           2. Impulsionar a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação;

           3. Moldar a agenda global;

Neste novo plano é ainda de salientar a proibição do uso de antimicrobianos em alimentos medicamentosos para profilaxia e promoção do crescimento animal. (Ec.europa.eu, 2018)

A Organização Mundial de Saúde (OMS) também reconheceu a emergência e a propagação da resistência aos antibacterianos como um problema grave a nível mundial, afetando tanto os países desenvolvidos como os países em desenvolvimento.

 

Considera que devem ser empreendidos esforços para retardar o aparecimento e a propagação da antibiótico-resistência devendo esta incidir em diversos aspetos:

        • vigilância da resistência;

        • educação dos prescritores, dos profissionais de saúde e do grande público;

        • regulamentação, designadamente na promoção dos antibióticos pela indústria farmacêutica;

        • investigação, nomeadamente pelo estudo dos mecanismos de resistência e da sua disseminação, e obtenção de novos agentes atuando sobre novos alvos;

        • prevenção da resistência pelo combate e prevenção da infeção.

Podes consultar mais em:

·         Www2.insa.pt. (2010). Resistência aos Antimicrobianos. [online] Available at: http://www2.insa.pt/sites/INSA/Portugues/AreasCientificas/DoencasInfecciosas/AreasTrabalho/ResistencAnti/Paginas/inicial.aspx

·         Centers for Disease Control and Prevention. (2018). What Exactly is Antibiotic Resistance?. [online] Available at: https://www.cdc.gov/drugresistance/about.html

·         Antimicrobial Resistance. (2018). EU Action on Antimicrobial Resistance – Antimicrobial Resistance – European Commission. [online] Available at: http://ec.europa.eu/health/amr/antimicrobial-resistance_en

·         Ec.europa.eu. (2017). [online] Available at: http://ec.europa.eu/health/amr/sites/amr/files/amr_summary_action_plan_2017_en.pdf  

·         Ec.europa.eu. (2018). [online] Available at: https://ec.europa.eu/health/amr/sites/amr/files/ev_20181026_co03_en.pdf  

·         Cassini, A., Högberg, L. and Plachouras, D., et al (2019). Attributable deaths and disability-adjusted life-years caused by infections with antibiotic-resistant bacteria in the EU and the European Economic Area in 2015: a population-level modelling analysis. www.thelancet.com/infection January 2019, 19, pp.56 – 66.

Anon, (2017). [online] Available at:    https://www.3tres3.com.pt/3tres3_common/art/pt/10743/flujo-de-determinantes-de-resistencia-a-antibioticos_120736.jpg

I.pinimg.com. (2017). [online] Available at:   https://i.pinimg.com/originals/cc/c0/05/ccc005c6b50a4c0375d5cb7ac5cbfd6e.jpg