Nos últimos meses do decorrente ano, o número de casos de peste suína africana (PSA) na Europa tem vindo a crescer de forma rápida e exponencial, sendo a situação mais crítica em países asiáticos como a China.

 

 

Diversas fontes jornalísticas relatam que, desde julho de 2017, foram registados cerca de quatro mil casos de PSA em países europeus como Itália, Estónia, Ucrânia e Hungria. Foram também registados casos na Rússia. Segundo a OIE, entre 19 e 25 de outubro foram registados novos casos na suinicultura em países como a Bulgária, România, Ucrânia e China, sendo que, nesta última, houve uma perda de cerca de 1517 suínos.

 

O agente da PSA é um vírus que afeta suínos domésticos e selvagens É uma doença não transmissível ao ser humano, mas causa  uma elevada taxa de mortalidade em suínos, constituindo um grave problema económico.

Algumas espécies de suínos selvagens são consideradas como reservatórios naturais do vírus, como é o caso do javali africano. Neste último, a infeção é inaparente podendo viver sem manifestar  graves sinais de infeção. (OIE, 2013). As carraças do género Ornithodoros também podem constituir um reservatório natural (OIE, 2013).

Existem diferentes ciclos de vida que podem ser associados a este vírus.

O ciclo silvático ocorre essencialmente no continente africano e envolve o javali africano e as carraças do género Ornithodoros (Beltrán-Alcrudo et al, 2017). Os javalis portadores do vírus normalmente são assintomáticos e o vírus é transmitido para a carraça aquando da alimentação do sangue do hospedeiro (Beltrán-Alcrudo et al, 2017). Normalmente esta transmissão do vírus da carraça para os javalis ocorre quando estes ainda são relativamente jovens, entre as 6-8 semanas. A fase de virémia dura normalmente 2 a 3 semanas (Beltrán-Alcrudo et al, 2017). Durante este período é possível a infeção das carraças aquando da sua alimentação (Beltrán-Alcrudo et al, 2017).

O ciclo doméstico envolve os suínos domésticos e as carraças do género Ornithodoros (Beltrán-Alcrudo et al, 2017).  Este ciclo é relativamente comum em países endémicos para a doença que são normalmente países considerados como subdesenvolvidos. Frequentemente, neste ciclo, os suínos domésticos podem ser infetados através da picada de carraças infetadas com o vírus, mas o vírus poderá também ser transmitido através de contato direto com porcos infetados ou com excreções, ambiente contaminado com o vírus, ingestão de alimentos contaminados e ainda fómites (Beltrán-Alcrudo et al, 2017).  Os suínos domésticos, ao contrário dos selvagens, são bastante suscetíveis à infeção e, após surgirem sintomas, a taxa de mortalidade é bastante elevada (Beltrán-Alcrudo et al, 2017).

 

No ciclo selvagem, suínos selvagens como o javali, apresentam um papel importante na manutenção, circulação e  transmissão do vírus para os suínos domésticos (Beltrán-Alcrudo et al, 2017). Esta infeção pode ser transmitida através de contacto direto entre suínos infetados, ambiente contaminado com o vírus ou fómites (Beltrán-Alcrudo et al, 2017).  Alimentos que estejam contaminados podem também ser fonte de transmissão do vírus (Beltrán-Alcrudo et al, 2017).

O vírus pode ser excretado por  inúmeras secreções tais como saliva, lágrimas, secreções nasais e genitais, urina e fezes (Beltrán-Alcrudo et al, 2017). A transmissão através do sangue também é possível devido à existência de virémia em animais infetados (Beltrán-Alcrudo et al, 2017). Uma vez que o vírus é sensivelmente resistentepoderá permanecer no meio ambiente por vários dias ou por vezes meses no caso de alimentos contaminados.

Independentemente da sua idade e género, todos os suínos são suscetíveis a serem infetados, sendo os mais novos os mais suscetíveis uma vez que não possuem um sistema imunitário totalmente desenvolvido. Normalmente esta doença apresenta uma taxa de mortalidade elevada e os suínos infetados morrem repentinamente, especialmente quando infetados com estirpes mais virulentas (Beltrán-Alcrudo et al, 2017). A mortalidade é dependente da virulência do vírus, chegando a atingir os 100% em casos de infeção com estirpes mais virulentas e menos de 20% em casos crónicos (Beltrán-Alcrudo et al, 2017).  Este vírus, embora altamente mortal, não se dissemina rapidamente na exploração, levando por vezes semanas até se disseminar por completo dentro de uma exploração.


Figura 1: Diferentes ciclos de vida existentes para a PSA (Adaptado de FAO, 2017).

 

A sintomatologia é variada e também dependente da virulência do vírus. Geralmente estirpes com virulência elevada induzem sintomatologia mais aguda e grave enquanto que estirpes menos virulentas podem levar a casos crónicos ou sintomatologia subclínica.

Existem diversas formas da doença que variam consoante a estirpe em causa sendo a sintomatologia de cada forma significativamente diferente.

 

  1. Forma hiperaguda:

    1. Morte repentina sem grandes alterações ou sintomas (OIE, 2013).

 

  1. Forma aguda:

    1. Hipertermia – normalmente valores bastantes elevados, até 42ºC;

    2. Trombocitopénia e leucopénia;

    3. Prostração e anorexia;

    4. Aumento da frequência respiratória e cardíaca;

    5. Sinais gastrointestinais tais como vómitos e diarreia – em situações mais graves há presença de hematoquézia ou hematemese;

    6. Pode ocorrer aborto em fêmeas gestantes (OIE, 2013).

 

  1. Forma subaguda:

    1. Sinais normalmente menos intensos comparativamente com a forma aguda;

    2. Poderá ocorrer aborto;

    3. Taxa de mortalidade mais baixa comparativamente com a forma aguda (OIE, 2013).

 

  1. Forma crónica:

    1. Na forma crónica vamos ter alterações significativas em vários órgãos;

    2. Poderão ser observadas lesões de necrose na pele ou ainda úlceras cutâneas;

    3. Artrites – animais com visível claudicação;

    4. Pericardite;

    5. Taxa de mortalidade baixa mas taxa de morbilidade bastante elevada (OIE, 2013).

Devido à existência de sintomatologia pouco específica, é importante que se identifiquem e descartem outros diagnósticos diferenciais tais como:

  1. Pasteurelose;

  2. Doença de Aujeszky;

  3. Erisipelose;

  4. Salmonelose;

  5. Síndrome respiratório e reprodutor suíno;

  6. Peste suína clássica (OIE, 2013).

De modo a evitar disseminação do vírus em suínos domésticos é necessário que planos sanitários e profiláticos sejam instaurados. É importante que exista um elevado controlo da alimentação destes animais e que esta provenha de fontes fidedignas e devidamente controladas evitando alimentar suínos com alimentos possivelmente contaminados (OIE, 2013). Os países que se encontram livres de PSA deverão ter especial atenção não só no controlo alimentar mas também à política de transporte e higienização quer das explorações quer dos meios de transporte (OIE, 2013). Animais onde tenha sido detetada a infeção pelo vírus devem ser prontamente abatidos e deverá ser realizada uma eficiente e controlada eliminação de cadáveres (OIE, 2013). Além disso animais infetados deverão ser separados dos restantes e mantidos em quarentena, em ambiente controlado evitando a disseminação do vírus para animais saudáveis (OIE, 2013).

Os estudos epidemiológicos revelam-se de elevada importância no controlo desta doença uma vez que poderão dar indicações de possíveis focos de disseminação do vírus, possibilitando a delimitação de áreas a ser controladas (OIE, 2013). É importante ainda assegurar que não existe contato entre suínos domésticos e selvagens e, além disso, que os primeiros não sejam parasitados por carraças, principalmente do género Ornithodoros sob o risco desse vírus poder ser transmitido pela picada deste argasídeo (OIE, 2013).

 

Bibliografia:

Oie.int. (2013). [online] Available at: http://www.oie.int/fileadmin/Home/eng/Our_scientific_expertise/docs/pdf/AFRICAN%20SWINE%20FEVER.pdf

Beltrán-Alcrudo, D., Arias, M., Gallardo, C., Kramer, S. & Penrith, M.L. 2017.

African swine fever: detection and diagnosis – A manual for veterinarians. FAO Animal Production and

Health Manual No. 19. Rome. Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO). 88 pages.