Nos últimos anos, tem-se debatido muito sobre os problemas relacionados com a resistência a antimicrobianos, a poluição ambiental e o aumento da incidência de doenças multifatoriais e crónicas. As alterações climáticas, a desflorestação de terrenos, o aumento da população humana e animal bem como as movimentações das mesmas, causam, em conjunto, graves problemas para a biodiversidade e ecossistemas nomeadamente o surgimento de doenças zoonóticas ou o reaparecimento destas.

One Healthé um conceito que relaciona de forma íntima a saúde humana, a saúde animal (tanto animais domésticos como silvestres) e a saúde ambiental, com o objetivo de incentivar a procura de respostas a zoonoses emergentes, cuidar da integridade dos ecossistemas e conservação da biodiversidade.

Este conceito tenta implementar uma estratégia global em diversos sectores: saúde humana, animal e ambiental. Tenta ainda encorajar e promover a interdependência, coexistência e evolução de seres com o ambiente.

 

Perante a perda de biodiversidade, as alterações climáticas, o esgotamento dos serviços ecológicos e exponencial crescimento das populações, vários colaboradores ambientais e sociais reúnem-se para a resolução destes problemas, atuando na tríade Homem-Animal-Ambiente. Há evidências que sugerem que One Healthestá relacionado com doenças infeciosas emergentes e transfronteiriças, transmissão de doenças entre Vida Selvagem – Animal Doméstico – Ser Humano, Saúde Global e Segurança Alimentar.

 

É necessário haver uma articulação entre saúde humana e One Healthpara que, tanto na Medicina Veterinária como na Saúde Pública, se trave a transmissão de doenças na interface Animal-Humano. É importante integrarem-se os conceitos de Vigilância, Pesquisae Açãoe é fundamental a comunicação entre os Investigadores, o Governoe as Comunidades.

  • Para que isto resulte, é necessário: 
  • Conhecer a complexidade,pois devemos ter noção que mais que uma espécie pode ser afetada pelo mesmo agente infecioso e considerar o valor que a fauna local tem para as comunidades locais, hospedeiros e parasitas que partilham o mesmo ambiente
  • Antecipar consequências indesejáveis, isto porque gerir um sistema único de hospedeiro-agente infecioso pode ter efeitos imprevisíveis, por isso devemos considerar o sistema inteiro. Além disso, a remoção total do problema também pode prejudicar os benefícios da interação Homem-Natureza e uma má gestão e má comunicação podem levar à dispersão do agente;
  • Reconhecer que os sistemas de saúde englobam parasitas, sendo que a presença deles por si só não é sinónimo de doença, ou de que os animais não possam ser consumidos;
  • Compreender a importância da comunicação e gestão; partilhar com as comunidades locais os resultados da pesquisa é importante, no caso de zoonoses deve-se alertar a comunidade local e os profissionais de saúde pública e quando for altura de tomar decisões deve-se comunicar sempre com a comunidade local, técnicos especialistas e autoridades responsáveis.

 

O médico veterinário desempenha, assim, um papel fundamental no controlo destes agentes zoonóticos através da implementação de medidas profiláticas e preventivas nos animais domésticos, bem como no controlo das espécies silváticas e exóticas. Além disso, é ainda fundamental o desempenho da atividade médico-veterinária na higiene e segurança alimentar de alimentos derivados de produtos animais, bem como no controlo do transporte de animais e controlo epidemiológico destes agentes zoonóticos, possibilitando a prevenção de crises sanitárias de saúde pública e animal.

As Doenças infecciosas surgem ligadas à falta de conhecimento dos ciclos de vida e transmissão de seres patogénicos para vida tanto animal como vegetal. A maioria dos casos novos são considerados significativos em termos de saúde pública, em especial as zoonoses, e surgem com a diversidade animal, migrações, persistência ambiental. Destruição de habitats, poluição ambiental e alterações climáticas têm contribuído para estas ocorrências propiciando uma maior distribuição geográficos de agentes.

Para além dos referidos anteriormente, ainda se juntam as trocas comerciais e a industrialização da agricultura e da aquacultura num curto espaço de tempo em comparação com a evolução ao longo dos anos, e ainda as tendências e movimentos de animais e plantas infetados, com fins de colonização de novos ecossistemas. A industrialização, que levou à produção intensiva animal e vegetal, aceleram estes acontecimentos com o uso excessivo de pesticidas, fertilizantes e antibióticos, que ainda levam ao aparecimento de resistências.

Resiliência é definida como a capacidade de um ecossistema sofrer mudanças e ainda manter a sua estrutura, funções e identidade. A propagação de agentes infeciosos tenta-se combater com o controlo de diversidade biológica, predação, competição e interações simbióticas.É necessário encontrar métodos de combate inovadores contra estas resistências, sendo que a higiene e prevenção são muitas vezes mais eficazes do que a utilização de fármacos e químicos.

Toxicidadeé uma das causas de transmissão de agentes, devido aos efeitos dos contaminantes causando impactos fisiológicos, imunológicos e endócrinos nas respostas dos organismos e ecossistema. A poluição ambiental, que já é um tema discutido pela sociedade, é mais concentrada nas zonas litorais e costeiras devido à sobrepopulação, logo espécies nestas áreas são mais sujeitas a diversas toxinas e poluentes sintéticos e naturais. No entanto, também as áreas mais restritas como as polares estão a ser afetadas por contaminantes.

Doenças multifatoriais surgem facilmente em seres debilitados por alterações na nutrição, temperatura, salinidade, pH, salinidade ou exposição a contaminantes. A prevenção é um desafio para a sociedade e gerações futuras.

Por esta razão, a medicina humana e veterinária estão a trabalhar em uníssono para reduzir, prevenir e controlar estes factores de risco.

Urbanização tem um grande papel associado a poluição ambiental e tem role nas escolhas de vida do homem.

Figura 1: Os riscos infeciosos e tóxicos e as suas interações (Adaptado de Garzón, D. et al. «The One Health Concept: 10 Years Old and a Long Road Ahead». Frontiers in Veterinary Science, 2018).

Um dos maiores desafios/barreiras da One Health é a falta de comunicação entre as diferentes ciências (medicina humana, veterinária, agronomia e ecologia) e com a sociedade. É necessário desenvolver uma colaboração nacional e internacional com as redes sociais, de forma a fomentar a população sobre os diversos perigos.

 

  • Conclusão

É crucial compreender o surgimento e propagação de doenças infeciosas e a criação de controlos de estratégia inovadores. Contudo, os recursos disponíveis na sociedade limitam o desenvolvimento e integração de ações. Um grande desafio é a implementação do conceito One Health. Há que arranjar factos que o valorizem e fazê-lo chegar aos governos e associações de pesquisa com a finalidade de promover a integração na vida humana a nível social e intelectual.

 

  • Bibliografia:

Garzón, D. D., Mavingui, P., Boestsch G., Boissier, J., Darriet F., Duboz P., Fritsch, C., et al. «The One Health Concept: 10 Years Old and a Long Road Ahead». Frontiers in Veterinary Science, 2018.